Como baixar a intensidade da resposta na sessão: 5 recursos
Por Roberto Botelho
O cliente disparou forte demais. E agora? Cinco recursos para regular a intensidade: conversacional, dissociação, dupla dissociação, submodalidades e relaxamento.
Você tocou no assunto e o cliente disparou. Forte. Bem mais forte do que você esperava.
Esse é o momento que separa quem tem manejo de quem só tem roteiro. Porque sem ferramenta de regulação, você tem duas opções ruins: continuar e hiperestimular, ou parar e deixar o cliente pior do que chegou.
Aqui estão os recursos que eu uso, do mais preventivo ao mais cirúrgico.
1. Conversacional em vez de indução formal
Comece pelo mais barato: o conversacional estimula menos.
Existe uma diferença enorme entre te induzir, te concentrar e te fazer lembrar de algo — e simplesmente, num bate-papo, te fazer lembrar da mesma coisa. Hipnotizado, é muito mais intenso.
E aqui mora um paradoxo que confunde muita gente. James Braid, que cunhou o termo hipnose, entendeu que quanto mais concentrado você está, mais intensa fica a resposta à imaginação e à sugestão. Concentração amplifica.
Isso é ótimo quando você quer amplificar recurso. É péssimo quando o que está sendo amplificado é o problema.
A consequência prática é direta: se você quer um trabalho terapêutico em estado mais leve — uma regressão suave, por exemplo — você trabalha conversacional. O conversacional joga o estado para um nível mais brando porque a pessoa está menos concentrada, menos engajada, menos amplificada.
Quem domina metapadrões conversacionais tem vantagem. Sempre.
O outro lado do paradoxo: com fenômeno hipnótico você acelera muita coisa, dispara estado de recurso e colapsa rápido. Então não é para abandonar a indução. É para escolher.
Eu prefiro começar mais indireto, conversacional, e entrar em contato com a questão por ali — em vez de chegar chegando e tentar resolver o problema do cliente de peito aberto.
E preste atenção na conversa prévia. Você percebe a intensidade da questão ali, antes de qualquer indução. É um feeling que se desenvolve rápido quando você começa a atender: o cliente fala do problema e você já sabe se é bucha grande ou não.
2. Dissociação simples
Se subiu demais, dissocie.
Dissociar é tirar a pessoa de dentro da cena e colocá-la de fora. Jogar a imagem numa tela, ver a cena como quem assiste, ver a si mesmo ali.
Regra: se eu dissocio, eu diminuo a intensidade da resposta.
Duas ressalvas honestas. Primeira: não é porque a pessoa está dissociada que não existe resposta. Ainda existe contato, em algum nível. Segunda: a dissociação tende a deixar a pessoa mais racional — o que é ótimo aqui, porque racional é justamente o que você perde quando estoura a janela de tolerância.
Está vendo que ficou intenso? Dissocia. Não garante que não vai disparar, mas tende a aliviar.
3. Dupla dissociação
O nível 2 é a dupla dissociação: eu me vejo me vendo.
Tem eu assistindo à cena, e tem eu assistindo a mim mesmo assistindo à cena. Duas camadas de distância entre a pessoa e o conteúdo.
É o mecanismo que está dentro da Cura Rápida de Fobias, ferramenta clássica da PNL que todo hipnoterapeuta deveria ter no bolso — junto com swish e squash.
E aqui vai uma opinião minha: a Cura Rápida de Fobias é uma ferramenta ainda melhor para lidar com memória traumática do que com fobia propriamente dita. Quando você tem uma memória altamente aversiva, em que a pessoa não quer falar e entrar em contato é ruim, é uma escolha excelente. Não vejo por que ficar tentando ressignificar certas memórias — em muitos casos o caminho é dessensibilizar.
Faça o teste e compare as submodalidades antes e depois. Antes: o filme é longo, claro, brilhante, forte, e a resposta do corpo vem intensa. Depois: é rapidinho, preto e branco, destruído, lá longe, sem resposta corporal.
Só entenda o mecanismo em duas partes, porque isso importa: a dupla dissociação regula a intensidade do estímulo; o rebobinar é o que faz a dessensibilização. São funções distintas dentro da mesma técnica.
4. Submodalidades
Esta é, na minha opinião, a melhor ferramenta de regulação fina que existe.
Submodalidades são as qualidades da representação interna: tamanho, brilho, cor, distância, posição, velocidade. Mexer nelas muda a intensidade da resposta sem mexer no conteúdo.
O kit básico para baixar:
- Preto e branco em vez de colorido
- Menor
- Mais distante
Só isso já diminui o impacto de uma cena.
E tem uma variação que eu credito a John Overdurf e uso muito: jogar a tela da memória no chão. Uma telinha pequena, ali no chão, e a pessoa olhando de cima para baixo.
Faz sentido intuitivo e funcional. Olhar o problema de cima é uma posição melhor do que olhar o problema cara a cara. A geometria da cena comunica hierarquia. Telinha pequena, no chão, em preto e branco tende a derrubar bastante a resposta.
Agora, a parte que muda o resultado: você não precisa ser tão direto ao sugerir isso. Não precisa dizer "imagine uma telinha, com moldura, no chão". Seja sutil:
> "Pega essa memória e imagina que ela está lá no chão."
E aponte. Aponte para o chão enquanto fala. Quando você se refere à pessoa dentro da memória, aponte para lá — "ele lá", não "você". Você olha para a memória, você se direciona para a memória.
Isso ajuda o cliente a se conectar com a sua linguagem no nível das associações. O gesto faz metade do trabalho que a frase faria de forma pesada.
5. Relaxamento progressivo antes
Este é preventivo, e vale ouro quando você espera uma resposta intensa.
Se você já sabe que o cliente reage forte, ou começou a falar e a coisa já está explodindo, faça um relaxamento progressivo antes de mexer no conteúdo. Uma indução de Dave Elman se encaixa bem aqui.
Minha percepção clínica é que o relaxamento dá uma aliviada no problema. No mínimo, torna mais fácil o cliente entrar em contato — e é mais fácil entrar em contato a partir de um estado de relaxamento do que a partir de um estado já acelerado.
E se a pessoa não seguir a sugestão?
Acontece. Você sugere a telinha, sugere afastar, e nada.
Quase sempre a causa é a mesma: o negócio já estava disparado demais. A pessoa hiperestimulada tende a não seguir bem a sugestão. Ela vira pedra e fica dissociada.
Por isso a ordem importa. Regulação é muito mais fácil antes do pico do que depois. Você não quer descobrir se sabe regular no momento em que precisa desesperadamente.
Regular para baixo, sempre. Ou regular rápido.
Perguntas frequentes
Como acalmar um cliente que disparou muito na sessão?
Dissocie a experiência, afaste e reduza a imagem, tire a cor e traga o trabalho para o conversacional. Se a resposta já estava prevista, um relaxamento progressivo antes evita o pico.
Trabalhar conversacional é menos eficaz que hipnotizar?
Não é menos eficaz, é menos intenso. A concentração amplifica a resposta à sugestão, então a indução formal serve para acelerar e o conversacional serve para trabalhar em estado mais leve.
O que é dupla dissociação?
É a pessoa se ver assistindo a si mesma assistindo à cena — duas camadas de distância do conteúdo. É o mecanismo de regulação de intensidade que existe dentro da Cura Rápida de Fobias.
Quais submodalidades diminuem a intensidade de uma memória?
Preto e branco, imagem menor, mais distante e posicionada abaixo do campo de visão. Ver a cena de cima para baixo costuma reduzir mais a resposta do que vê-la de frente.
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