Como criar uma pressuposição hipnótica em 4 passos
Por Roberto Botelho
Como criar uma pressuposição hipnótica: objetivo, truísmo, oração antes e conjunção. A receita completa, com exemplo montado do zero.
Padrão de linguagem, para muita gente, virou sinônimo de decorar palavrinha. Use "imagine". Use "porque". Use "pode".
Isso não é padrão de linguagem. Isso é vocabulário.
Padrão de linguagem de verdade é uma estrutura. E a pressuposição é o melhor exemplo que existe — é sugestão indireta de alto nível, com engenharia por trás. Vou te dar a receita inteira.
O que é uma pressuposição
Pressuposição é falar como se algo já estivesse acontecendo, jogando a dúvida sobre outro aspecto da experiência.
Exemplo:
> "Eu me pergunto se você já percebeu o transe que surgiu aqui agora."
O que está pressuposto? Que você está em transe. Qual é a minha dúvida? Só se você percebeu ou não.
Outro:
> "Eu não sei quando você vai notar o relaxamento crescente no seu corpo."
Pressupõe que existe relaxamento crescente. A única dúvida é quando você vai perceber.
Repare no mecanismo: parte da experiência eu coloco em xeque, e outra parte eu já trato como verdadeira. E quando eu pressuponho que algo é verdadeiro, você já jogou a sua atenção para isso. Você já reagiu de alguma forma.
A pressuposição é muito poderosa, porque seu efeito ocorre por implicação de significado, onde a pessoa energiza por dentro a própria sugestão, sem que o hipnologo a dê diretamente. E pelo simples fato da pessoa responder a pressuposição, ela já está aceitando a sugestão, pois independente da resposta a aceitação é implícita. A Única forma de alguém não aceitar uma sugestão dessa, é criticando a própria pressuposição em si.
Por que é tão difícil recusar
Aqui está a beleza da coisa.
Se você responde a uma sugestão em forma de pressuposição, você já aceitou ela. Respondeu à pergunta sobre quando? Aceitou que vai acontecer.
A única forma de não aceitar uma pressuposição é questionar a própria pressuposição.
Ou seja: a pessoa teria que parar, sair do fluxo da conversa e dizer "espera aí, quem disse que tem relaxamento crescente?". Isso é socialmente pesado, é interrupção, e quase ninguém faz — muito menos alguém que já está acompanhado e com a tensão relacional baixa.
Por isso pressuposição não é truque. É estrutura.
A receita em quatro passos
Uma pressuposição se cria colocando uma oração antes de um truísmo, ligada por uma conjunção ou advérbio relativo. Passo a passo:
1. Defina o objetivo estratégico. O que exatamente você quer que aconteça? Qual sugestão você quer dar?
2. Crie um truísmo que contenha esse objetivo. Uma frase em que essa resposta já está acontecendo.
3. Crie uma oração para colocar antes. Normalmente algo como "eu não sei", "eu me pergunto", "seria interessante notar".
4. Escolha a conjunção ou o advérbio relativo: quando, onde, como, quanto.
É isso. Quatro passos.
Exemplo montado do zero
Vamos fazer junto, com o objetivo mais simples possível: fazer alguém fechar os olhos.
Passo 1 — Objetivo: que a pessoa feche os olhos.
Passo 2 — Truísmo com o objetivo dentro: "Você pode fechar os seus olhos."
Passo 3 — Oração antes: "Eu não sei..."
Passo 4 — Conjunção: "quando".
Resultado:
> "Eu não sei quando você fechará os seus olhos."
Olha o que aconteceu com essa frase. O fechamento dos olhos virou pressuposto. Não está mais em discussão se vai acontecer. É apenas uma questão de quando — agora, daqui a pouco, daqui a um minutinho.
Compare com "feche os olhos". A primeira pode ser recusada. A segunda também. Mas a versão pressuposta não oferece um lugar confortável para a recusa.
Os quatro eixos
Variando a conjunção ou o advérbio relativo, você cria famílias diferentes de pressuposição:
Tempo — quando "Eu não sei quando você poderá experimentar o conforto interior." Isso significa que você vai experimentar conforto interior. A única incógnita é o momento.
Lugar — onde "Eu não sei onde você vai sentir o relaxamento que está crescendo em você." Pressupõe que o relaxamento existe e está crescendo. A dúvida é o local. E "lugar" aqui pode ser lugar físico, região do corpo ou até um espaço da experiência mental.
Processo — como "Eu não sei como você vai perceber o relaxamento crescente em você." Pressupõe a percepção e o relaxamento; a dúvida é o mecanismo.
Quantidade — quanto "Eu não sei quanto em transe você já está." Essa é uma das minhas favoritas. Ela expõe como fato que você já está em transe. Eu só não sei quanto. Ou: "eu não sei quanto relaxamento já tomou conta do seu corpo" — pressupõe que você já relaxou.
Dá para variar ainda em andamento e duração. E, para criar variedade, a oração inicial também pode mudar: "eu me pergunto se...", "seria curioso descobrir...".
O que separa isso de decorar palavras
Uma frase como "eu não sei quanto relaxamento já tomou conta do seu corpo" tem uma estrutura por trás. Ela não funciona porque contém a palavra "relaxamento". Funciona porque coloca a sugestão fora do alcance da dúvida e oferece à pessoa uma dúvida decorativa para ocupar o lugar.
É isso que é sugestão indireta de verdade — muito mais do que modelinhos de padrão que se decoram numa tarde.
Escreva as suas. Pegue os três objetivos que você mais persegue nas suas sessões e monte, para cada um, uma pressuposição de tempo, uma de lugar, uma de processo e uma de quantidade. Doze frases. Depois teste na sessão e veja quais caem melhor na sua boca.
Existem diversas outras estruturas e modelos diferentes de pressuposições. Eu mesmo montei a aula mais completa que já vi sobre o tema, e deixei ela totalmente disponível no meu canal do youtube caso você tenha interesse em assistir.
Perguntas frequentes
Como criar uma pressuposição hipnótica?
Defina o objetivo, escreva um truísmo que o contenha, coloque uma oração antes ("eu não sei") e ligue com uma conjunção: quando, onde, como ou quanto.
Pressuposição é manipulação?
É estrutura de linguagem, e o cliente pode questionar a frase inteira a qualquer momento. O que ela faz é reduzir a oportunidade de recusa automática de algo que a própria pessoa buscou.
Qual a diferença entre pressuposição e truísmo?
O truísmo afirma algo que já é verdade. A pressuposição trata como verdade algo que ainda não aconteceu e desloca a dúvida para um detalhe secundário.
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