Dessensibilização sistemática: comer o problema pela beirada
Por Roberto Botelho
Dessensibilização sistemática é atacar o problema pouco a pouco, do menos aversivo ao mais. Veja como montar o catálogo e escalonar distância e intensidade.
Muita gente usa o termo "dessensibilização sistemática" sem nunca ter parado para pensar no que a palavra do meio está fazendo ali.
Sistemático significa pouco a pouco. Em etapas ordenadas, do mais fácil para o mais difícil, sem pular degrau.
Não é um detalhe de estilo. É o que separa a técnica de uma exposição bruta que estoura a janela de tolerância do cliente e treina o problema em vez de desfazê-lo.
A regra: sempre pelo menos aversivo
Se alguém tem fobia de altura, eu não chego dizendo "vamos lá em cima do prédio olhar do alto".
Duas coisas acontecem se eu fizer isso. Primeira: a pessoa não vai. Se a fobia é real, ela evita, e ponto. Segunda: só de pensar na proposta ela já hiperestimula — ou seja, eu produzi o pico de resposta antes mesmo de qualquer exposição acontecer.
Então a regra é simples de dizer e trabalhosa de executar: descubra o que é mais aversivo e o que é menos aversivo, e comece pelo menos.
Como montar o catálogo aversivo
Esta é a parte que ninguém ensina, e é literalmente conversar. Você monta com o cliente uma lista ordenada dos estímulos, do mais tranquilo ao mais insuportável.
Com fobia de aranha, as perguntas são estas, sem rodeio:
> "Tem alguma aranha que é mais tranquila para você?" > "Qual aranha para você é mais de boa?" > "Aquela de perninha longa que fica dentro de casa — você tem medo dela?"
Se ela responde que dessa não tem problema, achei meu ponto de partida. Aí eu faço a pergunta do outro lado:
> "E qual é a que você tem mais medo?"
Aquela é a última. Fica guardada para o final.
E o começo pode ser ainda mais suave do que a aranha mais tranquila: uma aranha de desenho animado. Uma foto de uma aranha de desenho. Um brinquedo. Dali eu vou subindo.
Com fobia de sapo, mesma coisa: qual sapo é pior, qual é menos pior, o gordinho é pior, o amarelinho é pior? Com medo de falar em público: em qual contexto é mais tranquilo, em qual é menos? Apresentar o seu trabalho para os seus amigos é mais tranquilo do que apresentar para o pessoal do seu chefe? É? Então começamos com os amigos.
Se for necessário, eu quebro o problema em mil pedaços. Literalmente mil. Não existe degrau pequeno demais.
Distância e intensidade são dois eixos
Existe um segundo controle além de qual estímulo. É quão perto ele está.
Se alguém tem fobia de agulha, eu não faço a pessoa segurar a agulha. Eu faço ela olhar a agulha de longe. Se tem fobia de sapo, ela não vai pegar o sapo — ela vai ver o sapo a dez metros.
E aí o escalonamento acontece nos dois eixos, alternando:
- Pego o estímulo menos aversivo, bem longe.
- Vou trazendo para mais perto, até zerar a resposta perto.
- Troco para um estímulo um pouco mais aversivo — e volto ele para longe.
- Trago de novo para perto até zerar.
- Repito, subindo a escala.
Cada vez que você troca para um estímulo mais forte, você compensa aumentando a distância. Nunca sobe os dois de uma vez.
Contexto de controle percebido
Tem um terceiro elemento que costuma passar batido e que sustenta os outros dois: a pessoa precisa se sentir no controle.
Ela está numa sala em que ela pode fechar a porta quando quiser. Ela pode dizer "para" a qualquer momento. Ela sabe que nada vai ser trazido para perto sem ela autorizar.
Isso muda fisiologicamente a resposta. Controle percebido reduz a ativação de ameaça. E cada passo só acontece se for negociável — se ela estiver disposta. Inclusive, recursos externos também são muito bem vindos! Se a cliente se sente mais segura com o pai, talvez seja bom ter ele ao lado no começo.
Por que mexer na beirada resolve o núcleo
Uma dúvida legítima: se eu fico trabalhando com a aranha de desenho, como isso resolve o medo da aranha real?
Pense no problema como uma teia. Não é um ponto isolado, é uma rede generalizada de associações que dispara junto.
Quando eu trabalho o sapinho que a pessoa não tem medo, e depois o sapinho de que ela tem um pouquinho de medo, eu já cortei pedaços dessa teia que sustentavam o núcleo. A resposta aversiva ao problema principal diminui sozinha, porque ela nunca esteve sozinha.
A teia dispara junto. Então enfraquecer as bordas enfraquece o centro. Comer pela beirada não é adiar o problema — é desmontá-lo por onde ele cede.
Muito hipnoterapeuta já faz isso intuitivamente sem ter o nome. Quem trabalha processos com várias figuras envolvidas, por exemplo, costuma começar pelas mais tranquilas e deixar as mais pesadas para o fim. Está certíssimo. É dessensibilização sistemática, só que sem o rótulo.
O ganho que ninguém contabiliza: retenção
Existe uma razão comercial e humana para trabalhar assim, e ela é tão importante quanto a razão neurológica.
Quanto mais aversivo o que você propõe, mais evitação você gera. E o cliente hiperestimulado abandona a terapia.
Ele não te manda um e-mail explicando. Ele desmarca a próxima. Depois desmarca de novo. Depois some.
Não é falta de compromisso. É o organismo dele fazendo exatamente o que você treinou: evitar o lugar onde a resposta ruim aconteceu. E você virou parte do gatilho.
Trabalhar do menos aversivo para o mais mantém a pessoa na sala. E terapia que continua acontecendo é a única que dá resultado.
Perguntas frequentes
O que é dessensibilização sistemática?
É a técnica de reduzir uma resposta aversiva por etapas ordenadas, começando pelo estímulo menos temido e avançando aos poucos para os mais temidos, sem ultrapassar o que a pessoa tolera.
Por que "sistemática"?
Porque o trabalho é feito pouco a pouco, em uma sequência montada previamente com o cliente. Sem essa ordenação, vira exposição bruta e tende a reforçar o medo.
Como montar a lista do menos ao mais aversivo?
Perguntando diretamente ao cliente qual variação do estímulo é mais tranquila e qual é a pior, e quebrando o problema em quantos pedaços forem necessários até haver um degrau confortável para começar.
Por que começar de longe funciona?
Porque a distância é um regulador de intensidade independente do estímulo. Dá para trabalhar um estímulo mais forte mantendo a ativação baixa simplesmente afastando-o.
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