Por que Erickson não atacava o problema de frente
Por Roberto Botelho
O indireto de Erickson não era rodeio nem mistério: era regulação de intensidade. Entenda o trabalho por nível de associações e por que ele comia pela beirada.
Tem uma leitura preguiçosa do trabalho de Milton Erickson que virou senso comum: que ele era indireto porque era místico, enigmático, meio xamânico. Que ele contava historinhas porque gostava de contar historinhas.
Eu discordo frontalmente. O indireto de Erickson é técnico e tem uma função clara — e quando você entende essa função, ele deixa de ser um estilo simpático e vira uma ferramenta que você usa por decisão clínica.
O indireto de Erickson é regulação de intensidade.
A frase que organiza tudo
Erickson se comunicava no nível em que o cliente estava se comunicando.
Simples de dizer e profundo de entender, porque "o nível em que o cliente está se comunicando" não é só vocabulário ou grau de instrução. Tem a ver com o quanto ele consegue entrar em contato com o próprio conteúdo..
E aqui entra o mecanismo: quando o conteúdo está muito aversivo, a pessoa evita entrar em contato com ele. Não é escolha consciente. É o organismo se protegendo de ultrapassar a janela de tolerância — aquele teto de ativação acima do qual ele entra em luta e fuga ou dissocia.
Então Erickson olhava para a pessoa e via: ela não está entrando em contato com isso. E a conclusão dele não era "vou insistir até ela entrar". Era: vou comer pela beirada.
Ele não ia tocar no núcleo e fazer a pessoa colapsar diante da questão. Ele ia enfraquecer a questão. E aí o problema vinha sozinho ou poderia se mudar sozinho como um efeito bola de neve..
O caso da moça que vomitava
Este é um caso conhecido da literatura de Erickson e ilustra bem a lógica.
Uma jovem que, sempre que ia se relacionar com um rapaz, começava a vomitar.
Erickson não tocou no assunto com ela. Ele não abordou o tópico. Quando finalmente abordou, abordou com ela dissociada, e manteve a amnésia depois.
Repare no encadeamento das decisões. Ele viu que ela não entrava em contato com aquilo. Logo, não trouxe consciência. Não colocou a questão na mesa para ser discutida de frente.
Isso é o oposto do que a maior parte dos terapeutas faz. A gente é treinado a nomear, esclarecer, trazer para a luz. Erickson fez o cálculo inverso: trazer para a luz, ali, custaria mais do que renderia.
Trabalho por nível de associações
O que Erickson fazia em vez de encarar o núcleo tem um nome: ele trabalhava as associações da pessoa primeiro.
Associação, aqui, é o conjunto de significados que a pessoa liga àquele tema. Toda questão emocional vive dentro de uma rede de sentidos, e é possível editar a rede sem apontar para o centro dela.
O exemplo mais didático disso é como Erickson trabalharia um caso de vaginismo. Vaginismo é um desconforto que aparece no momento da relação sexual, com a introdução de algo.
Ele não começaria falando de sexo. Ele começaria falando dos prazeres que a gente tem ao colocar o alimento na boca. Falaria do bebê que tem prazer em mamar. Falaria do prazer de fumar.
Ou seja: ele falaria de coisas prazerosas que envolvem colocar algo dentro. Coisas naturais, cotidianas, sem carga aversiva nenhuma.
Ele está trabalhando o significado que a pessoa tem em relação a "colocar algo dentro" — e está trabalhando esse significado por um caminho que não dispara resposta de ameaça. Nenhuma dessas cenas ativa a rede do problema em intensidade alta. Mas todas elas mexem na estrutura de sentido que sustenta o problema.
Quando o direto é a escolha certa
Não estou dizendo que direto é errado. Seria burrice.
O critério é o estado do cliente. Se a pessoa está engajada, dentro da janela, respondendo bem e entrando em contato com o conteúdo sem estourar, sugestão direta funciona e funciona rápido. Você não precisa de rodeio nenhum.
O indireto entra quando você percebe que o contato direto custa caro demais. Quando você vê que a pessoa evita, trava, muda de assunto, ou que a resposta já vem no pico só de você encostar no tema. Ou simplesmente quando a pessoa não está respondendo ao processo hipnótico.
Ou seja: direto e indireto não são escolas, são doses. Você escolhe pela leitura da intensidade, não pela sua identidade profissional.
Quem entendeu isso parou de brigar sobre se Erickson era melhor ou pior que Elman. São ferramentas para estados diferentes do mesmo cliente, às vezes na mesma sessão.
Perguntas frequentes
Por que Erickson era indireto?
Porque o trabalho indireto permite acessar o conteúdo do cliente sem estourar a tolerância dele. É uma forma de regular a intensidade da resposta, não um traço de personalidade.
Hipnose indireta funciona mesmo?
Funciona, e é especialmente indicada quando o cliente evita entrar em contato com o tema ou reage com intensidade alta demais. Quando a pessoa está engajada e estável, o direto tende a ser mais rápido.
O que é trabalhar por nível de associações?
É modificar a rede de significados que sustenta o problema abordando temas correlatos e neutros, em vez de apontar diretamente para o núcleo da questão.
O indireto não é só enrolação?
Não. Ele tem alvo definido: as associações que sustentam o problema. A diferença em relação a atacar de frente é a intensidade da resposta que ele provoca, não a ausência de objetivo.
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