Inconsciente é atenção: o modelo ericksoniano de mente
Por Roberto Botelho
O inconsciente na hipnose ericksoniana não é uma entidade escondida: é tudo o que você não está notando agora. Entenda o modelo atencional.
Existe uma imagem que quase todo mundo carrega quando começa a estudar hipnose: o inconsciente como um porão. Um cofre trancado, cheio de memórias e programas, e o hipnólogo como o sujeito que descobriu a senha.
Essa imagem é bonita, vende curso, mas não é mesmo modelo que Milton Erickson utilizava. Acho importante trazer esse tema, porque muita gente fala de ericksoniana, mas acaba usando conceitos de consciente e inconsciente que são diferentes das utilizadas por Milton Erickson.
Na hipnose ericksoniana, consciente e inconsciente têm um significado muito mais simples e muito mais útil:
- Consciente é o que eu percebo agora.
- Inconsciente é todo o resto — tudo o que eu não estou notando.
É isso. O modelo de mente aqui é atencional. O inconsciente não é uma entidade com vontade própria escondida atrás de uma porta. É o campo enorme do que está fora do foco. E no caso, o que dirige o foco é a linguagem e a comunicação.
Um teste que você pode fazer lendo esta frase
Neste momento, os seus pés estão em contato com alguma coisa. Um chão, um sapato, uma cama.
Você não estava percebendo isso até a frase anterior. Agora está.
O que aconteceu? A sensação já existia. Ela não apareceu porque eu falei. Ela era inconsciente — no sentido de não notada — e eu joguei a sua atenção para lá. Ela virou consciente.
O mesmo com a sua respiração. Com o peso da roupa no seu corpo. Com o ar que entra no seu nariz.
Tudo isso é verdadeiro e estava acontecendo. E, no instante em que eu falo, sai do inconsciente e se torna consciente. Eu me torno consciente daquilo que eu não percebia/não usava, que antes estavam inconscientes.
Então consciência aqui está relacionado com onde minha atenção está direcionada, e o que estou percebendo ou usando agora. Já todo o resto é inconsciente.
Esse é o modelo inteiro. Não tem porão.
Faculdade crítica x modelo atencional
O modelo concorrente, o mais popular por aí, é o da faculdade crítica — a ideia de que existe um filtro entre a mente consciente e a inconsciente, e que hipnotizar é atravessar esse filtro para depositar sugestões do outro lado.
Nesse modelo, o hipnólogo é quase um arrombador de porta. A indução serve para abrir a passagem.
No modelo ericksoniano não é isso. Não é o inconsciente que eu vou acessar quando atravesso a faculdade crítica. Tem a ver com atenção. Hipnotizar é redirecionar atenção, não abrir uma porta.
E olha a consequência prática dessa diferença: se hipnose é redirecionamento de atenção, então ela não depende de um estado especial ter sido "atingido" primeiro. Ela começa na primeira frase que muda o seu foco.
O inconsciente já está aqui
A gente pensa que precisa acessar o inconsciente durante a hipnose. Mas o nosso inconsciente já está aqui, o tempo todo, funcionando à vista de todos.
Quero te mostrar isso com o processo ideodinâmico. Ideodinâmico é o nome da resposta involuntária que a gente tem a partir de um pensamento, de uma imaginação ou de uma sugestão. Ideo de ideia, dinâmico de movimento: a ideia gera a resposta.
Aquele sinal de sim e de não no dedo, que eu produzo em uma sessão de hipnose e que impressiona quem está assistindo, é exatamente a mesma resposta do cliente que senta na minha frente numa conversa comum e, enquanto eu falo, mexe a mão, balança o pé, muda a postura. É comum eu estar conversando com alguém, e essa pessoa estar concordando comigo e fazendo um sinal de sim com a cabeça, sem nem perceber que está fazendo esse movimento.
Esse movimento é ideomotor — movimento gerado por uma ideia. É um processo ideodinâmico. É você reagindo, inconscientemente, a algo que está acontecendo nessa conversa. E está acontecendo fora da sua tomada de decisão.
Ou seja: o fenômeno que a hipnose usa não é um fenômeno exótico que só existe em transe. Ele acontece o dia inteiro, na fila do banco, no almoço em família, na sua sessão de terapia sem hipnose nenhuma. Tudo aquilo que geramos dentro da hipnose, e que são fenômenos hipnóticos, eles também acontecem fora da hipnose no nosso cotidiano. Nada que fazemos na hipnose, não acontece fora.
O que a hipnose faz é estimular isso de propósito, e na ericksoniana aprendemos a gerar esses fenômenos a partir da atenção da pessoa.
Por que isso importa para quem atende
Três consequências diretas.
Primeira: você para de perseguir um portal. Não existe o momento mágico em que "entrou". Existe atenção sendo dirigida, mais ou menos, com mais ou menos habilidade.
Segunda: você entende para que serve dirigir atenção com palavras. Quando eu digo "você pode notar o ritmo da sua respiração", eu estou direcionando atenção para um comportamento. Quando eu digo "você pode começar a notar sensações de conforto interior", estou direcionando atenção para uma experiência interna. São movimentos diferentes, com efeitos diferentes.
Terceira, e a mais importante: você para de tratar o cliente como alguém que tem um inconsciente rebelde a ser dominado. Ele tem uma atenção. E atenção se convida, não se arromba.
Perguntas frequentes
O que é o inconsciente na hipnose ericksoniana?
É tudo aquilo que você não está percebendo neste momento. Não é uma entidade separada nem um depósito de traumas: é o campo do que está fora do seu foco de atenção agora.
O que é faculdade crítica e por que Erickson não usa esse modelo?
Faculdade crítica é a suposta barreira entre consciente e inconsciente, que a indução atravessaria. No modelo ericksoniano não existe essa porta: hipnose é redirecionamento de atenção, não invasão.
O que é processo ideodinâmico?
É a resposta involuntária que surge a partir de um pensamento, imaginação ou sugestão. Um movimento ideomotor, por exemplo, é um movimento que acontece fora da sua decisão consciente.
Isso significa que eu já entro em transe no dia a dia?
Significa que os mecanismos usados na hipnose já operam na conversa comum. O que a hipnose faz é usá-los de forma intencional e organizada.
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