Janela de tolerância: o limite que muda toda a sessão
Por Roberto Botelho
A janela de tolerância é o ponto em que a ansiedade deixa de ajudar e vira luta e fuga. Entenda o conceito de Daniel Siegel e o que ele muda na terapia.
Tem um conteúdo que quase ninguém no meio da hipnose fala, e que na minha opinião deveria vir antes de qualquer técnica: a janela de tolerância.
Se você não entende isso, você vai conduzir sessões no escuro. Vai achar que quanto mais o cliente reage, melhor está indo. E não é bem assim.
Primeiro, o acelerador e o freio
O sistema nervoso autônomo é a parte do sistema nervoso que trabalha sem você mandar: batimento cardíaco, respiração, digestão, pressão. Ele tem duas metades que vivem se rebalanceando.
O parassimpático é o freio. É o sistema do relaxamento, da digestão, da recuperação. É o corpo curando.
O simpático é o acelerador. É o sistema do estresse, da atenção, da ansiedade. É o corpo se preparando para executar alguma coisa.
Aqui já entra a primeira coisa que incomoda muita gente: estresse e ansiedade, no corpo, são a mesma coisa. É ativação simpática. Muda o nome conforme o contexto, mas o mecanismo é um só.
Ansiedade não é o vilão
Você está sentado aí, relaxado, e resolve pegar um copo d'água. Só de pensar nisso, o seu simpático já disparou. A pressão sobe um pouco, você ganha energia, e é isso que te tira do sofá.
Ninguém pega um copo d'água relaxado. Ninguém resolve um problema no trabalho quase dormindo.
Agora sobe um degrau. A zebra no meio do mato ouve um barulho suspeito. Ela tem que ter ansiedade. Ela precisa que a pressão suba, que a respiração acelere, que o sangue vá para as extremidades. Sem isso ela não corre, e sem correr ela morre.
Ansiedade é mecanismo de sobrevivência. É essencial, o tempo todo, para todo mundo.
Porém — e aqui está o "porém" que sustenta a aula inteira — até certo ponto.
O ponto exato: a janela de tolerância
Janela de tolerância é um termo de Daniel Siegel, pesquisador ligado àquele grupo da abordagem informada pelo trauma, junto com gente como Bessel van der Kolk e Peter Levine.
A janela é o intervalo de ativação em que a pessoa ainda funciona. Dentro dela, o estresse é performance: você está alerta, energizado, pensando bem, respondendo bem e racionalizando bem.
Passou do teto da janela, você sai da resposta de performance e entra em luta e fuga. E na luta e fuga acontece uma coisa específica: cai a regulação cortical. O córtex — a parte que planeja, que segura impulso, que raciocina — para de conversar direito com as áreas emocionais.
Em casos muito muito intensos chega até mesmo a ocorrer um processo que chamamos de sequestro da amigdala, que geralmente vai ocorrer em fobias. Em bom português: a pessoa com muita ansiedade não pensa. Ela não está te enrolando, ela literalmente perdeu performance cognitiva naquele momento.
Passar por cima da janela também empurra para o outro extremo: em vez de acelerar, a pessoa desliga. Dissocia. Fica ali, olhando para você, e não está mais ali. Sem falar que essa pessoa já ficou hiperestimulada, o que teoricamente é um problema no manejo terapêutico.
Para mim, agora, falar com um grupo exige estar empolgado, com energia. Isso é simpático dentro da janela. Se essa mesma ativação subisse mais um pouco e passasse do teto, eu não estaria melhor — eu estaria pior.
A janela é sua, não é universal
Essa altura varia de pessoa para pessoa. Não é pouco: varia muito.
Tem gente que com pouquíssimo estímulo já estoura o teto. Tem gente extremamente resistente. Eu, pessoalmente, sou muito tolerante: entro em qualquer brinquedo radical, fico sob altíssimo estresse e não tenho resposta de luta e fuga com facilidade. E tem quem suba na montanha-russa e comece a desmaiar.
Nenhum dos dois está errado. São janelas de tamanhos diferentes.
E tem mais: a janela é treinável. Ela muda ao longo da vida. A pessoa pode ficar mais habituada ao estresse ou menos habituada a reagir a ele. Quem passa por treinamento de exposição controlada — profissões que exigem isso são o exemplo óbvio — tende a alargar a janela.
Só que existe uma armadilha aqui, e ela derruba muito terapeuta experiente: ser tolerante em geral não significa ser tolerante naquilo. Você pode ter uma janela enorme para estresse cotidiano e ter um gatilho específico, muito bem treinado ao longo dos anos, que já vem intenso desde o primeiro segundo. Alta tolerância geral não anula resposta condicionada pontual.
Então não generalize pelo perfil do cliente. Calibre pelo gatilho.
Por que isso importa na sua sessão
Porque a janela de tolerância é a régua da sessão inteira.
Quando você faz um cliente entrar em contato com o problema, você está subindo a ativação dele. Se essa subida ficar dentro da janela, ótimo: ele está engajado, sentindo, e ainda consegue pensar, relatar, escolher, responder à sugestão.
Se passar do teto, você perdeu o interlocutor. Ele está tendo resposta involuntária e não está regulando nada. Muitas vezes nem percebe que está tendo a resposta. Vai dissociar e vai querer evitar. Nesse estado, sugestão não pega bem — a pessoa vira pedra.
E tem o efeito colateral que quase ninguém liga ao mecanismo: estado influencia crença. É a memória dependente de estado. Cliente imerso num estado de problema intenso não sabe falar de solução, não sabe falar de recurso. Ele só sabe falar do que não quer. Você pergunta pelo que ele deseja e ele te devolve mais problema — não por má vontade, mas porque naquele estado o recurso não está acessível.
Ou seja: o cliente hiperestimulado é pior de conduzir, pior de mapear, pior de sugestionar e pior de manter e de manejar a terapia.
Perguntas frequentes
O que é janela de tolerância?
É o intervalo de ativação do sistema nervoso em que a pessoa consegue sentir e ao mesmo tempo continuar pensando. Acima desse teto ela entra em luta e fuga ou dissocia; abaixo, fica desligada demais para agir.
Quem criou o conceito de janela de tolerância?
Daniel Siegel, pesquisador ligado ao campo das abordagens informadas pelo trauma. O conceito hoje é usado bem além da psicoterapia de trauma.
Ansiedade é sempre ruim?
Não. Ansiedade é ativação do sistema simpático e é essencial para agir, se preparar e se proteger. Ela só vira problema quando ultrapassa a janela de tolerância da pessoa e derruba a capacidade de raciocinar e regular.
A janela de tolerância pode aumentar?
Pode. Ela varia de pessoa para pessoa e muda ao longo da vida. Exposição gradual e bem dosada tende a alargá-la; exposição bruta e acima do limite tende a estreitá-la.
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