Não precisa sofrer para mudar: o "adequado o suficiente"
Por Roberto Botelho
Só de disparar a rede do problema já existe mudança. Entenda por que reviver a dor não é requisito e como usar o "adequado o suficiente" de Erickson.
Tem uma ideia que atravessou o século passado inteiro e ainda mora na cabeça de muita gente: para se curar de alguma coisa, você precisa reviver aquilo. Sentir tudo de novo. Chorar tudo de novo. Descer até o fundo.
Não é verdade. E, pior, muitas vezes é contraproducente.
Vou explicar o mecanismo, porque aqui a explicação vale mais que a opinião.
Ativar a rede já é mexer na rede
Se eu estou lidando com um gatilho, com uma questão que está disparando, ela tem um padrão de disparo neural por trás. Vamos resumir e metaforizar esse padrão chamando isso de "Teia neural". Uma teia de neurônios que dispara em conjunto e produz aquele conjunto de sensações, pensamentos e reações.
Para modificar essa teia, você precisa disparar essa teia neural primeiro, para que ela possa entrar em estado labial, para então estar aberta a neuroplasticidade. Eu primeiro disparo a teia neural, ela fica instável e plástica, ai eu preciso estimular ela de outra forma para ter de fato a neuroplasticidade diferente. E o que precisamos é apenas disparar essa teia neural, e não ficar super estimulando ela.
É isso que a terapia faz quando pede para você falar do assunto, lembrar da cena, imaginar a situação: ela liga a rede para poder mexer nela.
E aqui está o ponto que muda tudo: só de disparar a rede do problema, mesmo que de forma fraca, e estimular com um padrão diferente, você já estará promovendo alguma mudança.
Não é preciso hiperestimular. A rede não precisa estar em capacidade máxima para ser editável. Ela precisa simplesmente ser ligada antes.
Você não aumenta a plasticidade quebrando a pessoa e fazendo ela sentir algo de maneira muito intensa. Você só aumenta o custo.
O custo real da hiperestimulação
Se você levar o cliente muito acima da janela de tolerância — aquele teto de ativação a partir do qual ele entra em luta e fuga — três coisas ruins acontecem ao mesmo tempo.
Primeira: pela lei de Hebb, disparo muito intenso e repetido tende a reforçar a rede do problema, em vez de enfraquecê-la, ou seja, você literalmente treinou a pessoa para ter ainda mais esse problema.
Segunda: em estado intenso, cai a resposta cortical. A pessoa perde performance cognitiva, não regula, não acompanha bem a sugestão. Você fica falando sozinho e o cliente dissociado.
Terceira, e a mais subestimada: aumenta a evitação. E evitação não é só do gatilho. É de você. Da sala. Da terapia inteira.
Então só existe vantagem em manter o estado-problema fraco. Não é meia terapia. É a terapia com o cliente inteiro presente.
O "adequado o suficiente" de Erickson
Erickson usava uma expressão que resolve isso de forma elegante: adequado o suficiente. Ou, na variação: apenas intenso o suficiente.
É uma sugestão de regulação. Em vez de você tentar controlar a intensidade de fora, você entrega o dial para o inconsciente do cliente, com um critério embutido: intenso o bastante para funcionar, e nada além disso.
Se a pessoa está engajada e reagindo hipnoticamente, sugestão direta funciona bem aqui. Você pode dizer algo como:
> "E essa sensação pode aparecer apenas no nível adequado o suficiente para o seu inconsciente resolver isso. Só isso. Nem um pouco mais do que o necessário."
Ou:
> "Traga essa lembrança apenas intensa o suficiente para a gente trabalhar com ela — e o seu inconsciente sabe exatamente qual é essa medida."
Repare no que está pressuposto: que existe um nível certo, que ele é menor do que o máximo, e que o cliente é capaz de encontrá-lo. Nenhuma das três coisas está em discussão na frase.
Por que isso funciona melhor do que "relaxa"
Mandar o cliente relaxar no meio de uma resposta intensa raramente funciona, porque você está pedindo o oposto do que o corpo está fazendo. É uma ordem contra a corrente.
O "adequado o suficiente" não pede o oposto. Ele aceita que a resposta vai acontecer e apenas negocia o volume. É acompanhar e conduzir, aplicado à intensidade.
E tem uma vantagem clínica adicional: o cliente experimenta que ele consegue dosar. Isso, por si só, já é terapêutico para quem chegou dizendo que aquilo simplesmente toma conta e ele não pode fazer nada.
O que eu quero que fique
Sofrimento não é ingrediente ativo.
Existe uma estética do sofrimento na terapia que confunde intensidade com profundidade. São coisas diferentes. Profundidade é o quanto o trabalho alcança da estrutura do problema. Intensidade é só o volume.
Dá para trabalhar fundo em volume baixo. É mais difícil, exige mais técnica, exige que você saiba regular. Mas é melhor para o cliente e é melhor para o resultado.
Se você precisa que o seu cliente sofra para acreditar que está trabalhando, o problema não está na técnica.
Perguntas frequentes
Preciso reviver o trauma para me curar?
Não. Para modificar uma resposta emocional basta que a rede associada esteja ativa, e ela fica ativa em intensidades baixas. Reviver com intensidade máxima aumenta o sofrimento sem aumentar o resultado.
O que significa "adequado o suficiente" em hipnose?
É uma expressão usada por Erickson para pedir que a resposta apareça apenas no nível necessário para o trabalho, entregando ao próprio cliente a regulação da intensidade.
Terapia sem sofrer funciona mesmo?
Funciona, e costuma funcionar melhor. Em estados muito intensos a pessoa perde capacidade de raciocinar e de responder à sugestão, o que atrapalha justamente a parte que produz mudança.
Como saber se a intensidade está boa na sessão?
Se o cliente sente alguma coisa e ainda consegue falar, escolher e acompanhar o que você propõe, está dentro da faixa útil. Se ele trava, dissocia ou não responde, passou do ponto.
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