O transe causa a mudança? Para que serve o transe
Por Roberto Botelho
O transe causa a mudança ou é consequência dela? Entenda a inversão de causa e efeito que separa a hipnose ericksoniana do modelo de Elman.
O transe causa a mudança — é o que praticamente toda escola de hipnose ensina. E é aqui que eu discordo: na ericksoniana, o transe não causa nada. Ele é consequência, não motor.
Parece heresia, eu sei. Mas segura o raciocínio, porque aqui mora a diferença entre a hipnose ericksoniana e quase tudo que se ensina por aí. Repare que a discussão não é sobre transe raso ou profundo. É sobre quem causa o quê.
O modelo de Elman: primeiro o estado, depois o fenômeno
Pega o modelo do Dave Elman, que é o mais popular no mercado. Nele, a lógica é clara: eu tenho que te colocar em transe para as coisas acontecerem. A hipnose só existe quando eu atravesso a faculdade crítica (aquela suposta barreira que filtraria as sugestões antes de elas chegarem "lá dentro"). Se não houve o transe, se você não acessou um estado alterado, não existe hipnose. Primeiro o estado, depois o fenômeno.
É um modelo causal: transe é a causa, mudança é o efeito.
Na ericksoniana a gente inverte isso por completo. O transe não é a causa. O transe é uma consequência. É um indicador. É um sinal de que tem coisa acontecendo ali, não o motor que faz acontecer.
Pense bem. Ao fazer uma hipnose de entretenimento, isso pode ficar ainda mais claro para a gente, porque alguém pode apresentar diversos sintomas fisiológicos do transe, mas não aceitar sugestão hipnótica nenhuma, enquanto outra pessoa pode não ter sintoma nenhum de transe e estar aceitando até mesmo as sugestões mais complexas. Não é o sinal de transe que vai ditar a sugestionabilidade de alguém.
A inversão do raciocínio
Presta atenção no contraste, sempre com o Elman do lado para comparar.
No Elman: eu preciso gerar transe para fazer regressão. Na ericksoniana: quando eu faço regressão, você demonstra sinais de transe. Quando você alucina, você demonstra sinais de transe. E não o contrário. Não é que você demonstra transe e por isso alucina. É que você alucina, e o transe aparece junto, como um sintoma daquilo.
Por isso eu digo uma frase que confunde no começo: o que pressupõe transe gera transe.
Se eu te faço concentrar, alucinar, ter uma amnésia, uma distorção de tempo, tudo isso pressupõe que um transe vai surgir ali espontaneamente. Mas não é o transe que fez o fenômeno. O fenômeno é que trouxe o transe junto.
Na prática isso significa uma coisa muito concreta. Se eu estou conversando com alguém e, de repente, começo a fazer uma regressão conversacional (levar a pessoa a reviver algo do passado dentro da própria conversa, sem ritual nenhum de indução), quando essa regressão acontece, eu percebo os sinais de transe surgindo. Sem nunca ter feito uma "indução". E aqui vem o ponto: o transe, nesse momento, não tem importância nenhuma para mim. Ele não serve para convencer. Ele serve, no máximo, como ratificação, um sinal de que estou no caminho.
Isso não é invenção moderna
Tem gente que acha que isso é modinha, releitura contemporânea. Não é.
O Erickson aprendeu hipnose com o Clark Hull. E em 1932 o Clark Hull já tinha comprovado, em estudo de laboratório, que a gente não precisa falar de transe para fazer hipnose. É o cara que trouxe a hipnose para a ciência moderna. 1932. Quase um século atrás.
Ou seja: a ideia de que hipnose é um estado especial que você tem que "instalar" antes de qualquer coisa já estava sendo questionada cientificamente antes da maioria das escolas que hoje vendem indução como se fosse o coração do trabalho.
Então para que serve o transe?
Se o transe é consequência e não causa, para que colocar uma etapa no meio do caminho que pode nem acontecer?
Pensa comigo. Se eu quero gerar uma amnésia, uma alucinação, uma distorção temporal, uma regressão, eu não preciso te colocar em transe antes. Eu posso simplesmente evocar o fenômeno. Por que eu vou inserir uma etapa intermediária (te induzir ao transe), que talvez não funcione, só para depois evocar a resposta que eu quero, se eu posso evocar essa resposta diretamente?
Na ericksoniana a gente pode cortar esse meio de campo. Corta o processo de indução formal e vai direto ao ponto: evoca o que se quer, conversacionalmente.
E é por isso que, quando você me vê trabalhando, eu não faço indução hipnótica. Eu gero fenômeno hipnótico. Crio um movimento involuntário, provoco uma alucinação, uma distorção de tempo. O transe vem no rastro, sozinho, como indicador de que aquilo está acontecendo. Ele não é o objetivo. É o termômetro.
O transe serve, então, para uma coisa só: me informar. É leitura, não é ferramenta. Quem trata o termômetro como se fosse o remédio passa a sessão inteira cuidando do instrumento errado.
Guarda essa virada de chave, porque ela muda tudo na sua postura como hipnólogo: você para de tentar "colocar a pessoa em transe" e passa a evocar o fenômeno que resolve o problema. O estado é o efeito colateral do trabalho bem feito, nunca o pré-requisito.
Perguntas frequentes
O transe causa a mudança na hipnose?
Na hipnose ericksoniana, não. O transe é consequência do fenômeno hipnótico, não a sua causa. Quando a pessoa regride, alucina ou distorce o tempo, os sinais de transe aparecem junto — como sintoma do que já está acontecendo.
Para que serve o transe, então?
Serve como indicador. É um sinal de ratificação que informa ao hipnólogo que o trabalho está acontecendo. Funciona como termômetro: mede, mas não trata.
Qual a diferença entre a hipnose ericksoniana e o modelo de Dave Elman?
No modelo de Elman, primeiro se instala o estado (atravessando a faculdade crítica) e só depois vem o fenômeno. Na ericksoniana a ordem se inverte: evoca-se o fenômeno diretamente, e o transe surge como consequência.
Dá para fazer hipnose sem indução formal?
Dá. É exatamente o que a abordagem conversacional faz: evoca movimento involuntário, alucinação, regressão ou distorção de tempo dentro da conversa, sem ritual de indução. Clark Hull já demonstrava isso em laboratório em 1932.
Quer aprender hipnose de verdade?
Os grupos de estudo são gratuitos e ao vivo, toda semana — quartas às 19h e sextas às 8h. A gente estuda os livros direto da fonte.
Conhecer os grupos