Por que a levitação de mãos falha (e como Erickson fazia)
Por Roberto Botelho
A levitação de mãos falha porque é uma sugestão verificável dada como afirmação. Veja como Erickson usaria pressuposição para não quebrar a expectativa.
"Sua mão começa a subir involuntariamente."
Você falou. A mão não subiu. E aí você sentiu aquele frio na barriga, porque sabe que o cliente também percebeu.
Esse é o momento em que a maioria das levitações de mãos morre. E o problema não foi a sua voz, nem o nível de transe da pessoa. Foi a estrutura da frase.
Verificável x não verificável
Existe uma distinção que muda tudo, e quase ninguém ensina.
Tem coisas que a pessoa verifica na hora. Tem coisas que ela não verifica.
Compare estas duas sugestões:
- "E você pode aprender isso facilmente."
- "E sua mão começa a subir involuntariamente."
A primeira é abstrata. Não existe um teste imediato que diga se você está aprendendo ou não. Você não valida essa experiência com facilidade. Por isso ela é segura de usar cedo no processo.
A segunda é concreta e testável agora. A pessoa olha para a mão. A mão está subindo ou não está.
Da mesma forma, se eu te peço para alucinar algo, ou você alucina ou não alucina. Se eu te peço para esquecer algo, ou você esquece, ou não esquece.
Mas e se a mão não levitar ou se o fenômeno não acontecer? A expectativa da pessoa despenca. Ela conclui, sozinha, que "não está funcionando". E você acabou de sabotar a própria hipnose com uma frase.
A maioria dos fenômenos hipnóticos é verificável. Eu verifico se esqueci algo ou não. Eu verifico se estou anestesiado ou não. Eu verifico se a minha mão está levitando ou não. Eu verifico se estou me sentindo bem ou não.
Já aprendizado, conforto interior, mudança em curso — isso ninguém consegue conferir com um olhar.
Regra prática: quanto mais verificável a resposta, mais cuidado na formulação. Nunca afirme categoricamente algo que a pessoa pode conferir e desmentir em dois segundos.
Como Erickson formularia
Erickson não diria "sua mão vai começar a subir". Ele usaria pressuposição — falar como se algo já estivesse acontecendo e colocar a dúvida em outro aspecto da experiência.
Antes disso, ele já teria acompanhado bastante. Já teria feito o processinho todo. E aí ele diria algo como:
> "Eu não sei quando você vai perceber a leveza que começa a tomar conta da sua mão. Eu não sei se vai ser o seu dedo indicador ou o dedo médio que vai se movimentar primeiro."
Repare no que ficou pressuposto e no que ficou em dúvida.
Pressuposto: que existe leveza, que vai haver movimento, que a mão vai levitar. Em dúvida: qual dedo se move primeiro, quando você vai perceber.
A pessoa não tem como recusar sem questionar a frase inteira. E enquanto ela está ocupada checando se é o indicador ou o médio, ela já aceitou que vai ter movimento.
Agora compare com a versão ingênua. Na versão ingênua, a dúvida está exatamente no ponto que interessa — se a mão sobe. Na versão de Erickson, o ponto que interessa é premissa, e a dúvida foi realocada para um detalhe irrelevante.
É a mesma sugestão. A estrutura é outra.
Enquanto a resposta não vem, use possibilidade
Existe um segundo recurso, mais simples, para quando você está lidando com algo verificável e ainda não tem responsividade suficiente: os padrões de possibilidade.
"Talvez." "Pode ser que."
"Pode ser que você comece a notar uma leveza aí." Não é obrigatoriedade. Se não vier, nada foi desmentido. Se vier, você ganhou.
Toda vez que eu lido com algo que a pessoa consegue testar, eu começo pela possibilidade. Toda vez que eu lido com algo abstrato — atenção, pensamento, aprendizado — eu posso ser mais afirmativo e mais cedo.
A escadinha dos fenômenos
Tem ainda um erro anterior a todos esses: pedir o fenômeno errado na hora errada.
Eu não vou chegar dizendo "e você se sente bem", porque isso é uma sugestão ideoemocional — uma resposta emocional produzida por uma ideia. E eu não vou começar por uma amnésia, que é um dos fenômenos mais exigentes que existem.
Tem uma ordem. Uma escadinha:
- Ideomotor — movimento involuntário. Catalepsia, o próprio movimento da mão, um sinal de dedo.
- Ideossensorial — sensação. Peso, leveza, calor, formigamento.
- Ideoemocional — emoção. Conforto, tranquilidade.
- Fenômenos complexos — amnésia, anestesia, alucinação.
Eu gero antes um ideomotor. Depois um ideossensorial. Depois um ideoemocional. E só então eu vou para uma amnésia.
E, antes de tudo isso, eu acompanho muito. Acompanho, acompanho, acompanho, e só depois começo a eliciar resposta.
Juntando
Se a sua levitação de mãos falha, revise nesta ordem:
- Acompanhei o suficiente antes de pedir? Sugestão sem acompanhamento é pedido sem contexto.
- Estou pedindo o fenômeno certo para o ponto em que estamos? Ou pulei degraus da escadinha?
- A minha frase afirma algo verificável? Se afirma, reformule com pressuposição ou com possibilidade.
Na maioria das vezes, o problema está no item 3. E ele se corrige trocando uma frase.
Perguntas frequentes
Por que a levitação de mãos não funciona comigo?
Geralmente porque a sugestão foi afirmada de forma verificável ("sua mão está subindo") antes de haver responsividade. Quando a mão não sobe, a expectativa cai e o processo se desmonta.
O que é sugestão verificável?
É aquela cuja resposta a pessoa pode conferir imediatamente: a mão subiu ou não, esqueceu ou não, anestesiou ou não. Sugestões abstratas, como aprendizado, não podem ser conferidas.
Qual a ordem dos fenômenos hipnóticos?
Ideomotor primeiro, depois ideossensorial, depois ideoemocional, e por último os complexos como amnésia e anestesia. Pular degraus aumenta a chance de falha.
Como Erickson pedia uma levitação de mãos?
Com pressuposição: ele pressupunha a leveza e o movimento e colocava a dúvida em um detalhe secundário, como qual dedo se moveria primeiro ou quando a pessoa perceberia.
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