Ratificação hipnótica: o que fazer depois do sinal
Por Roberto Botelho
Ratificação hipnótica é devolver ao cliente o sinal que você viu. Entenda por que sem isso o transe não vira resultado terapêutico.
Ratificação hipnótica é o que você faz depois de ver o sinal de transe — e é isso, não a detecção, que produz resultado. Vou dizer de um jeito que vai incomodar bastante gente: na hipnose ericksoniana, você ver o sinal não importa por si só. Tanto faz.
Calma que eu explico. E no fim você vai entender por que essa frase é a diferença entre um hipnoterapeuta que funciona e um que fica orgulhoso de si mesmo.
O sinal não prevê nada
Primeiro, o dado incômodo.
Tem gente que está em transe e não apresenta sinal nenhum. E tem gente que apresenta todos os sinais de transe e não aceita sugestão nenhuma.
Leia de novo. O sinal não tem relação direta com a responsividade. Aquele olho de peixe morto lindo que você viu não garante que a pessoa vai gerar uma anestesia. E a pessoa aparentemente "acordada", que não fez nenhum sinal de livro, pode gerar todos os fenômenos que você pedir.
Então, se o sinal não prevê a resposta, para que serve detectar sinal?
Entre notar e fazer, tem um espaço enorme
Serve — mas não pelo que você pensa.
Entre eu notar um sinal e fazer alguma coisa a partir do que eu notei, tem um espaço muito grande. E é nesse espaço que mora a hipnose.
O sinal de transe tem uma função principal: ratificar.
Ratificação, para quem ainda não conhece o termo, é fazer a pessoa perceber que ela está em transe. É jogar a atenção dela para as alterações que aconteceram nela.
Eu viro para o cliente e digo: "olha, a sua pálpebra está vibrando". O que acontece internamente com ele? Ele pensa: "caramba, então eu estou reagindo corretamente".
Aquela dúvida — "será que eu estou fazendo o que eu tenho que fazer?" — diminui.
O detalhe técnico que quase ninguém percebe
O terapeuta pode tanto eliciar o transe, como eliciar os sinais do transe, os sintomas do transe. Pois mesmo que um sintoma tenha sido gerada por uma alteração na resposta do sistema nervoso autônomo, ainda assim essa resposta pode ser "Utilizada" a favor do processo terapêutico.
Você não persegue um estado abstrato chamado transe. Você provoca comportamentos concretos e observáveis, e depois devolve esses comportamentos para a pessoa. O estado é consequência, não alvo.
Ratificação gera cooperação involuntária
Aqui está o mecanismo, e é bonito.
Quando eu ratifico a sua experiência, você coopera mais. E é uma cooperação involuntária — porque você entende que está agindo certo. Ou seja: você vai continuar agindo certo.
Não é obediência. Não é você decidindo colaborar. É a sua própria percepção de acerto realimentando o processo.
Por isso ratificar comportamentos emitidos aprimora a experiência de transe do paciente e estimula uma maior capacidade de resposta. Um ciclo que se alimenta. É como uma dança e é um processo colaborativo entre hipnologo e sujeito.
Reconhecer e encorajar
O hipnoterapeuta deve reconhecer os comportamentos quando eles ocorrem — e também encorajar a manifestação deles.
São as duas mãos do mesmo trabalho: eu fico percebendo o que está acontecendo para usar isso a seu favor, e eu forço isso a acontecer para usar a seu favor.
Nos dois casos, o objetivo é o mesmo: te impressionar. E impressionar aqui não é vaidade — é o que faz você se reconhecer como hipnotizado, pois é isso que eleva a expectativa e favorece a resposta à hipnose.
O resumo
Detectar sinal sem devolver sinal é vaidade técnica. É o hipnólogo se provando competente para si mesmo.
O sinal só vale alguma coisa no momento em que ele volta para o cliente e retroalimenta o sistema.
Perguntas frequentes
O que é ratificação em hipnose?
É devolver ao cliente, em palavras, as alterações que aconteceram nele — a pálpebra que vibra, a respiração que mudou, o braço que subiu sozinho. O objetivo é que ele se reconheça como hipnotizado.
O que eu faço quando vejo um sinal de transe?
Fale sobre ele. Nomeie a alteração para a pessoa e siga adiante. Só detectar, em silêncio, não muda nada na experiência dela.
Por que o cliente diz que "não foi hipnotizado" mesmo depois de responder?
Porque faltou ratificação. Sem alguém apontar as alterações, e sem uma resposta claramente involuntária, ele não tem como concluir que estava em transe.
Ratificar é o mesmo que elogiar?
Não. Elogio é julgamento ("você foi ótimo"). Ratificação é descrição de um fato observável ("seu braço subiu sem você mandar"). É o fato, e não o elogio, que convence.
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