Sessão intensa pode piorar o problema? Sim — e eu explico
Por Roberto Botelho
Hiperestimular o cliente não é catarse: pela lei de Hebb, você pode estar treinando a resposta-problema. Entenda por que regular para baixo é a regra.
Existe uma crença silenciosa no meio terapêutico: a de que quanto mais forte a sessão, melhor o resultado. Cliente chorou muito, tremeu, gritou, saiu arrasado — "nossa, foi profundo".
Eu vou te propor outra leitura. Às vezes foi profundo mesmo. E às vezes você acabou de dar uma aula de reforço para o problema.
Antes de seguir, um aviso: eu não estou aqui para te dar medo. Isso já acontece, na sua sessão e na de todo mundo, com ou sem intenção. Não é para se culpar. É para fazer melhor daqui para frente.
O mecanismo: lei de Hebb
Donald Hebb resumiu numa frase que virou o alicerce da neuroplasticidade: neurônios que disparam juntos se conectam. Disparam juntos, repetidamente, se reforçam ou ficam sensiveis uns aos outros e continuam disparando juntos.
Isso é o que faz você aprender a andar de bicicleta. E é exatamente o que faz você aprender a ter pânico.
Uma rede neural — uma teia de neurônios que dispara em conjunto — se fortalece por dois fatores: repetição e intensidade. Quanto mais vezes e quanto mais forte, mais consolidada ela fica.
Agora junte isso com a janela de tolerância, aquele teto de ativação a partir do qual a pessoa entra em luta e fuga. Quando você faz o cliente ultrapassar esse teto dentro da sessão, o que aconteceu no cérebro dele? A teia neural do problema disparou em altíssima frequência e altíssima intensidade.
Teoricamente, você reforçou o problema do seu cliente. Você treinou o corpo dele a reagir daquele jeito. E a próxima vez pode ser pior.
O mesmo mecanismo, ao contrário: a evitação
Isso não vale só para o que acontece no consultório.
A pessoa com ansiedade que não enfrenta a situação: a próxima crise vem pior. A pessoa com comportamento evitativo diante do gatilho: no momento em que ela evita, ela treina.
Pense em alguém com medo de falar em público. Apareceu a oportunidade, ela fugiu. O corpo aprendeu duas coisas de uma vez: que aquilo era mesmo perigoso, e que fugir funciona. Na próxima vez o medo vai estar maior.
Hiperestimulação e evitação parecem opostos, mas são o mesmo mecanismo operando em direções diferentes. Um treina a resposta pelo excesso, o outro treina pela confirmação de que não dá para encarar.
O caminho do meio — que é o caminho terapêutico — é entrar em contato com o problema numa intensidade que o corpo aguenta processar, e se expor a isso de forma segura e controlada.
Você não tem 100% de controle (e tudo bem)
Sejamos honestos: a hiperestimulação às vezes acontece só pela resposta estar condicionada. Você toca no assunto e já vem com pico. Existem fobias mais intensas e menos intensas, gatilhos mais treinados e menos treinados. Você não tem controle total sobre isso.
Não ter controle total é diferente de não ter controle nenhum.
O ideal é manter a intensidade do disparo do problema o mais baixa possível durante a terapia. Quanto mais baixa, mais fácil o manejo.
Por que baixa intensidade rende mais
Além de não reforçar o problema, tem um ganho que é puramente prático: memória dependente de estado.
O estado emocional em que a pessoa está determina a que conteúdos ela tem acesso. Estado influencia crença, influencia forma de pensar, influencia o que aparece na memória.
Cliente imerso num estado de problema intenso não consegue falar de solução. Não consegue falar de recurso. Ele só sabe falar do que não quer. Você pergunta "e como você gostaria que fosse?" e recebe mais três minutos de problema — não por resistência, mas porque naquele estado o material de recurso simplesmente não está no ar.
Você quer o cliente com acesso ao próprio repertório. Isso só existe dentro da janela.
O sinal de alarme: o cliente que para de sentir
Tem um fenômeno que quem atende bastante já viu e quase sempre interpreta errado.
Sessão longa, pesada, muita coisa mobilizada. E aí, em algum momento, o cliente simplesmente para de sentir. Fica insensível. Você toca no assunto que dez minutos antes o desmontava e agora não vem nada.
É tentador ler isso como resolução. "Olha, zerou, a técnica funcionou."
Na maioria das vezes não zerou nada. O cliente foi hiperestimulado tanto tempo que o sistema desligou e o cliente ficou dissociado. É saturação, não é cura. É esperado, inclusive — o organismo não sustenta ativação máxima indefinidamente.
E é um péssimo momento para continuar trabalhando, porque qualquer teste que você fizer dali para frente vai dar falso negativo. Você vai medir ausência de resposta e achar que é resultado.
Dependendo do nível em que o cliente chegou nesse ponto, a sessão acabou ali. Não é derrota. É leitura correta do estado.
Regular para baixo, sempre
Quem trabalha com mudança deveria ter isso tatuado: regular para baixo, sempre. Ou regular rápido.
É por isso que eu prefiro lidar rápido com certas coisas nos processos inconscientes. Não é pressa. É que quanto mais rápido eu regulo, menos o cliente sofre no processo — e menos eu treino a resposta que eu vim desfazer.
Terapia não é resistência. Não é ver quanto o cliente aguenta. Não tem prêmio para quem sai mais destruído da sessão.
O que promove mudança é o contato, não a dor do contato.
Perguntas frequentes
Uma sessão de hipnose pode piorar o problema?
Pode, se o cliente for levado muito acima do que consegue tolerar. Pela lei de Hebb, disparar a rede do problema com muita intensidade e frequência tende a reforçar essa própria rede.
O que é a lei de Hebb?
É o princípio de que neurônios que disparam juntos repetidamente se conectam e se reforçam. Explica tanto o aprendizado de uma habilidade quanto a consolidação de uma resposta de medo.
Por que evitar o gatilho piora a ansiedade?
Porque a fuga confirma para o organismo que a ameaça era real e que evitar é a solução. Isso treina a resposta, e o medo tende a aparecer maior na próxima oportunidade.
O que significa quando o cliente para de sentir no meio da sessão?
Geralmente é saturação por excesso de estimulação, não resolução do problema. Nesse estado os testes dão falso negativo e o mais sensato costuma ser encerrar e retomar depois.
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