Utilização em hipnose ericksoniana: use o hobby dele
Por Roberto Botelho
Utilização em hipnose ericksoniana é induzir com o material do próprio cliente. Veja os dois níveis de comunicação e como coletar no pré-talk.
Utilização em hipnose ericksoniana é isto: eu induzo com o material que você já traz — o seu hobby, o seu trabalho, a sua vida — em vez de recitar uma metáfora de livro.
Eu não vou contar a metáfora da concha e da pérola.
Você não tem interesse na concha e na pérola. Eu vou falar da sua vida, do seu interesse, do seu hobby. E vou usar isso como interface para te levar à hipnose.
Deixa eu te mostrar como isso funciona — e por que a metáfora decorada não funciona.
Os dois níveis
Toda comunicação hipnótica ericksoniana opera em dois níveis ao mesmo tempo.
No nível social, o terapeuta escolhe um tema para discutir. Aparentemente, é só uma conversa.
No nível psicológico, ele intercala possibilidades fenomenológicas — ou seja, comunica sobre entrar em transe, sobre modificar a consciência, sobre respostas involuntárias.
Um exemplo para ficar claro: eu posso fazer uma indução falando sobre resistência à hipnose. A nível social, estou discutindo resistência. A nível psicológico, estou comunicando sobre entrar em transe.
A escolha do tema no nível social não deve ser aleatória. Ela é moldada para fins terapêuticos.
A bicicleta
Um exemplo bem simples pode ser assim:
*“E como é gostoso andar de bicicleta não é mesmo? É muito confortável poder andar de bicicleta e notar o mundo ao nosso redor. Enquanto eu ando de bicicleta, eu conscientemente posso aproveitar a experiencia, enquanto na verdade é o meu inconsciente que pedala a bicicleta para mim. Eu não preciso mandar meus pés pedalarem e nem meu corpo se equilibrar, porque eu posso confiar que o meu inconsciente vai fazer isso para mim, enquanto eu posso aproveitar a paisagem ou até mesmo pensar sobre os meus problemas.” “As vezes é relaxante andar de bicicleta. Eu posso estar com um problema enorme para resolver, mas simplesmente ao sair pedalar e deixar o meu inconsciente pedalando por mim, as vezes aquele problema pode se transformar facilmente sem que a gente precise se preocupar conscientemente com isso.”
Percebeu? Eu estou falando sobre andar de bicicleta. Mas estou te hipnotizando ao mesmo tempo.
Cada frase ali comunica involuntariedade, competência inconsciente, divisão de atenção e direção para um objetivo. Nenhuma delas fala de hipnose.
Por que hobby e não metáfora de livro
Aqui está a razão, e ela é simples.
Ao te hipnotizar, eu quero que você se concentre no que estou falando. Hipnose tem a ver com esse engajamento, com essa concentração.
Só que, se eu começar a falar sobre hipnose, talvez você não se interesse por hipnose. Por que você se concentraria?
Agora, se eu começar a falar do seu hobby — você tem interesse, você vai ouvir. Se eu falar sobre o seu trabalho, que você vive o dia inteiro, você vai se engajar nessa comunicação.
Atenção não se ordena. Se conquista.
Onde isso começa: no pré-talk
E aqui está a parte prática que quase ninguém faz direito.
Esse "perguntar" acontece quase que passivamente lá no começo, no pré-talk — a conversa inicial, antes de qualquer indução. Porque o foco da ericksoniana é trabalhar com os recursos que a pessoa já tem, sem precisar ficar inserindo muita coisa.
O princípio é: eu quero evocar, não instalar. Eu quero trazer de dentro, não colocar de fora para dentro.
Então eu começo conversando pensando assim: quando essa pessoa entrar em transe, quais são os recursos? Onde eu posso buscar recursos? Onde existe recurso dentro do sintoma e problema que ela está me trazendo?
E vou perguntando: o que você gosta de fazer? Como você passa o seu tempo livre? E o seu trabalho?
Vou fisgando as experiências que a pessoa tem. Cada resposta dela é uma interface possível.
Um alerta contra o exagero
Nem sempre a hipnose ericksoniana vai ter essa interface. Às vezes ela parece uma indução mais comum.
Erickson poderia fazer superindireto, falando de bicicleta. Poderia ser um pouco mais direto: "lembra de como é andar de bicicleta". Ou poderia dizer simplesmente: "fixa o seu olhar em um ponto da parede, vamos começar a hipnose".
A graça é ter mais possibilidades — não trocar um dogma por outro.
E depois: alterne
Uma última técnica, que é o que costura tudo.
Enquanto você conduz a metáfora, você para e ratifica — ou seja, aponta para a pessoa as alterações que já aconteceram nela. Volta para a metáfora, ratifica de novo.
"...e como é confortável andar de bicicleta, sentir a liberdade... e eu percebo que a sua respiração já mudou, está mais calma agora, suas pálpebras estão vibrando e você pode ir mais fundo... e quando eu ando de bicicleta..."
Faço um pouco de uma coisa, ratifico um pouquinho. Faço um pouco, ratifico um pouco.
O tema segura a atenção. A ratificação constrói o transe. As duas coisas ao mesmo tempo.
O princípio por trás de tudo
O terapeuta sugere possibilidades para que o paciente desenvolva a fenomenologia hipnótica.
Repare no verbo: sugere possibilidades. Eu estou oferecendo. Estou fazendo várias ofertas durante a hipnose.
Você que decide se aceita ou não.
Perguntas frequentes
O que é utilização em hipnose ericksoniana?
É o princípio de usar o que o cliente já traz — interesses, crenças, jeito de falar, até a resistência — como material da indução e da terapia, em vez de impor um roteiro pronto.
Como hipnotizar falando do hobby da pessoa?
Você conversa sobre o hobby no nível social e, dentro dessa conversa, intercala frases que comunicam involuntariedade, competência inconsciente e absorção. O tema segura a atenção; as entrelinhas fazem a hipnose.
Preciso decorar metáforas para fazer hipnose ericksoniana?
Não. Metáfora decorada costuma falhar justamente porque não é sobre a pessoa. É mais eficiente coletar o material dela no pré-talk e construir a partir dali.
O que perguntar no pré-talk para colher esse material?
O que ela gosta de fazer, como passa o tempo livre, qual é o trabalho dela, o que faz bem sem pensar. Cada resposta vira uma interface possível para a indução.
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