Crença limitante ou falta de habilidade?
Por Roberto Botelho
Nem todo travamento é crença limitante ou trauma. Muitas vezes é falta de habilidade — e nesse caso nenhuma sessão resolve. Veja como fazer o diagnóstico.
A pessoa chega e diz: "Roberto, eu quero desbloquear a minha prosperidade. Eu tenho bloqueio de prosperidade no meu inconsciente."
Aí você conversa cinco minutos e descobre: ela não sabe vender. Nunca estudou marketing. Não sabe fazer uma publicação numa rede social. Não tem oferta definida, não sabe precificar, não sabe abordar um cliente.
Óbvio que ela está travada. Só que não é crença. Não é trauma. Não é o inconsciente sabotando. É falta de habilidade.
E isso muda tudo, porque falta de habilidade não se resolve com sessão de hipnose. Se resolve treinando, aprendendo.
O nome bonito atrapalha o diagnóstico
Existe um vocabulário circulando por aí que transformou qualquer dificuldade em questão inconsciente: bloqueio, crença limitante, sabotagem, ferida, padrão ancestral.
O problema não é o vocabulário. É que ele fecha a investigação antes de ela começar. Se tudo é crença, você nunca vai perguntar se a pessoa simplesmente nunca aprendeu a fazer aquilo.
Nem tudo é passado. Nem tudo é crença limitante. Nem tudo é ressignificação.
E o custo desse erro é alto dos dois lados: o cliente paga sessões que não endereçam o problema dele, e você constrói um histórico de casos que "melhoram um pouco" e não deslancham.
Pense comigo. A pessoa que está com um "Bloqueio de prosperidade", na verdade pode ser que ela não tenha a habilidade de vender. Pode ser que essa pessoa não domine o mínimo de administração, não saiba marketing. É obvio que essa pessoa vai ter um "Bloqueio de prosperidade", mas isso não obrigatoriamente vai estar ligado a algo do passado, pois as vezes é só um comportamento que falta ser aprendido. Não adianta acreditar apenas que é prospero, se você não tem as habilidades que sustentam isso.
O caso da menina das pedrinhas
Está no livro de Jay Haley sobre Erickson e é a melhor ilustração disso.
Os pais levaram a filha porque as notas dela tinham caído. Era essa a demanda: melhorar a nota. Erickson olhou para outra coisa — na hora do intervalo, a menina era inapta, hesitante, desajeitada. Não gostava das outras meninas porque elas viviam jogando o jogo das pedrinhas, jogando bola, andando de skate, pulando corda. Segundo ela, "nunca faziam nada divertido".
Traduzindo: ela estava sozinha e excluída. E o motivo é que ela não sabia jogar nada daquilo, porque ela tinha uma deficiência em um de seus braços. Ela tinha um jogo de pedrinhas e uma bola em casa, e jogava mal. Também tinha o braço direito comprometido por sequela de paralisia.
Erickson não foi caçar a origem. Ele a desafiou dizendo que jogava pedrinhas pior do que ela — e ele podia dizer isso com honestidade, porque também tinha uma limitação física, sequela da pólio. O desafio foi aceito. Passou tardes jogando com ela.
Em três semanas ela era uma excelente jogadora. Depois vieram o skate — duas semanas — e o pular corda, uma semana. Enquanto isso, os pais estavam altamente descontentes com a aparente falta de interesse dele pelas notas da garota.
No fim, ela virou uma das melhores da escola em pedrinhas e pular corda. E consequentemente o desempenho escolar subiu junto.
O que Erickson tratou, de fato
Ele não trabalhou uma crença de "eu não sou capaz". Ele ensinou a menina a jogar.
Adquirida a habilidade, ela pôde se divertir com as outras crianças. Deixou de ser a esquisita do intervalo. Passou a pertencer. E a nota, que era o sintoma pelo qual os pais pagaram, se resolveu como efeito colateral.
Isso é foco em potencial: você desenvolve a pessoa em vez de investigar a avaria dela.
Na prática, é quase sempre mistura
Cuidado com o outro extremo. Não estou dizendo que crença limitante não existe.
O comum é os dois juntos, e um alimentando o outro: a pessoa não sabe fazer, faz mal, colhe resultado ruim, e o resultado ruim vira evidência de que ela é incapaz. A crença nasceu da falta de habilidade e agora impede a prática que resolveria a falta de habilidade.
Nesse caso você trabalha em duas frentes. Baixa a carga emocional o suficiente para ela conseguir praticar, e garante que a prática aconteça. Se você só faz a primeira parte, a pessoa sai leve da sessão e continua sem saber vender.
O que isso exige de você
Exige admitir que parte do que o seu cliente precisa não é terapia.
Às vezes o encaminhamento certo é um curso, um treino, um profissional de outra área, ou uma tarefa de casa monótona repetida por seis semanas. Falar isso não diminui o seu trabalho. Aumenta, porque significa que você sabe o que a sua ferramenta faz e o que ela não faz.
Erickson passou tardes jogando pedrinhas no chão da casa de uma menina. Não porque fosse simpático — porque era o que resolvia.
Perguntas frequentes
Como saber se é crença limitante ou falta de habilidade?
Verifique se a pessoa saberia executar o passo a passo caso o medo desaparecesse. Se ela não sabe descrever o que fazer, falta habilidade. Se ela sabe e trava, há componente emocional.
Hipnose resolve falta de habilidade?
Não diretamente. A hipnose pode reduzir a ansiedade que impede a prática e sustentar a motivação, mas a competência em si só vem com treino.
Bloqueio de prosperidade existe?
Existem padrões emocionais que atrapalham ganhar dinheiro, sim. Mas grande parte dos casos rotulados assim é desconhecimento comercial: a pessoa não aprendeu a vender, a se posicionar ou a precificar.
Encaminhar o cliente para um curso não é perder o cliente?
É o contrário. Endereçar o problema real produz resultado, e resultado é o que sustenta indicação e continuidade do trabalho.
Leia também
Quer aprender hipnose de verdade?
Os grupos de estudo são gratuitos e ao vivo, toda semana — quartas às 19h e sextas às 8h. A gente estuda os livros direto da fonte.
Conhecer os grupos