Question tags: o padrão para o cliente que desafia
Por Roberto Botelho
"Não é?", "não pode?", "não consegue?" — a pergunta de marcação existe para quem tende a contrariar a sugestão. Entenda como ela encurrala sem confronto.
Resposta curta: question tag é aquele rabinho no fim da frase — "não é?", "não pode?", "não consegue?". Ela existe para uma situação específica: o cliente que tende a contrariar tudo que você propõe.
E o modo como ela resolve isso é elegante. Ela já traz o contrário à tona, e aí não sobra o que contrariar.
Como fica na prática
Zeig dá os exemplos. Repare que é sempre a mesma estrutura — afirmação, e o oposto logo atrás:
"E você consegue perceber sensações agradáveis? Não consegue?"
"Você não precisa perceber todas as mudanças. Precisa?"
"Você pode experimentar o desenvolvimento de... Não é? Não pode?"
Perguntas de marcação podem ser adicionadas ao final de qualquer sugestão indireta. Não têm lugar fixo.
Por que isso funciona com quem resiste
Existe um perfil que a gente chama de comportamento de polaridade: a pessoa que desafia a sugestão. Você propõe A, ela pensa em não-A. Não por má vontade — é o jeito dela de processar.
Zeig chama esse recurso de técnica de encurralamento, e explica o mecanismo: equilibrando o positivo e o negativo, fica mais difícil para um paciente oposicionista pensar no caso oposto, porque o terapeuta já trouxe o oposto à tona.
Ou seja: você ocupou o lugar da objeção antes de ela chegar. Se eu já disse "não consegue?", contrariar seria concordar comigo.
Não é confronto. É retirar o espaço do confronto.
Onde ela mora no processo
Question tag é um dos três recursos de pós-sugestão que Zeig lista, junto com a ratificação e a adição de uma motivação. Pós-sugestão é o que você faz depois de sugerir, para potencializar o que acabou de ser oferecido.
Vale dizer que essa arrumação não é absoluta. A ratificação, por exemplo, não é obrigatoriamente uma pós-sugestão — ela é um elemento de indução, e funciona muito bem antes, como acompanhamento que dá potência à sugestão que vem depois:
"Agora que a gente já fez um pouco da hipnose e o seu corpo já relaxou mais, sua respiração já se acalmou, a cor da sua face mudou e suas pálpebras estão vibrando — isso significa que o seu inconsciente te leva mais fundo no transe agora."
Ali a ratificação virou acompanhamento, e a sugestão vem colada nela.
O terceiro recurso: motivação sob medida
Já que estamos no bloco do pós-sugestão, o terceiro item merece um parágrafo, porque é onde mais se erra.
É benéfico dar à pessoa uma razão para fazer algo. Só que a razão precisa ser dela.
"Você pode aproveitar as caminhadas essa semana, porque isso inspirará os seus filhos."
Isso é sob medida. Eu não uso uma motivação genérica, nem a minha própria motivação — eu uso aquilo que move aquela pessoa. Se os filhos são um dos motivos de ela estar na terapia, os filhos entram na frase.
Zeig é explícito: para serem mais eficazes, as motivações devem ser adaptadas às características e valores específicos do paciente.
O cuidado
Question tag em excesso vira cacoete. Se toda frase termina com "não é?", o padrão fica audível — e padrão audível perde o efeito, porque a pessoa passa a ouvir a técnica em vez da sugestão.
Use quando houver sinal de polaridade. Não use por hábito.
O resumo
O cliente que desafia não precisa ser vencido. Ele precisa que você diga o "não" antes dele.
É isso que a pergunta de marcação faz: entrega a objeção de bandeja, e assim a esvazia.
Perguntas frequentes
O que é uma question tag na hipnose?
É a pergunta curta acrescentada ao fim de uma sugestão — "não é?", "não pode?", "não consegue?" — que traz o oposto à tona e reduz a margem para contrariar.
Isso serve para todo cliente?
Serve melhor para quem apresenta comportamento de polaridade. Com quem já está cooperando, o excesso só chama atenção para a técnica.
Question tag é manipulação?
É comunicação estratégica, e o critério é o de sempre: a favor de quê. O objetivo é reduzir o atrito de alguém que quer mudar e trava no automático de contrariar.
Onde a question tag entra na sessão?
Ao final de qualquer sugestão indireta. Zeig a classifica entre os recursos de pós-sugestão, ao lado da ratificação e da motivação.
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