Como criar uma metáfora ericksoniana sob medida
Por Roberto Botelho
Metáfora ericksoniana não é história decorada. É construída na hora, a partir da classe do problema e do repertório do cliente. Veja o método em três passos.
Metáfora ericksoniana não é decorar história. Não é a história do bambu que enverga quando bate o vento. Não é abrir um livro de metáforas terapêuticas, escolher a do capítulo "autoestima" e recitar.
Isso é o oposto do que Erickson fazia. E como saber que a metáfora decorada está errada não ensina ninguém a construir a certa, vamos ao método.
A metáfora ericksoniana se constrói no momento, com o material que o cliente acabou de te dar. Ela tem uma engenharia, e a engenharia tem passos.
O caso que mostra a engenharia inteira
Vou começar citando um caso que está no livro do Jay Haley, o "Terapia não convencional". Um menino de dez anos que molhava a cama todas as noites. Os pais o arrastaram literalmente até o consultório — o pai segurando por um braço, a mãe pelo outro.
Erickson não falou do problema. Nenhuma vez, em nenhuma sessão.
Ele conversou sobre o corpo do menino: um bom pulso, tornozelos compactos, um tórax que se sobressai. Depois perguntou de esportes, e sobre o que um menino dessa idade deveria gostar de conversar. O menino jogava beisebol e atirava com arco e flecha.
Erickson foi fundo no arco e flecha. Falou de coordenação, de precisão, de como um milímetro decide o alvo. Perguntou o que ele achava que a pupila do olho fazia na hora de mirar. Explicou que existem músculos chatos, músculos longos e músculos circulares. E chegou no músculo circular do fundo do estômago — aquele que se fecha e segura o conteúdo até a hora certa, e que só abre quando é hora de esvaziar.
Depois perguntou onde fica o fundo do estômago quando se é um menino pequeno. Bem lá embaixo.
Quatro entrevistas, nenhuma menção ao problema, e o menino parou de molhar a cama. Erickson resumiu assim: tudo o que fez foi conversar sobre músculos circulares que se movimentam involuntariamente.
Passo 1: nomeie a classe do problema, não o problema
Aqui está a chave que quase ninguém pega.
O problema descrito era "molhar a cama". Se você trabalha com essa descrição, você não tem para onde ir — vai acabar falando de cama, de vergonha, de pais.
Erickson não usou a descrição. Ele usou a classe do problema: falta de controle de musculatura involuntária fina.
Reformular o problema como classe é o que abre a porta. Porque a classe existe em mil outros lugares da vida do cliente — e nesses outros lugares ela não tem carga emocional nenhuma.
Faça a pergunta desta forma: que tipo de operação está falhando aqui? Não qual é o sintoma.
Passo 2: encontre a mesma classe dentro do repertório do cliente
Definida a classe, você procura onde ela já aparece na vida dele funcionando bem.
Erickson perguntou dos esportes por isso. E quando o menino disse arco e flecha, ele achou ouro: arco e flecha é controle muscular fino. A pupila que se fecha ao mirar é controle muscular involuntário. O esfíncter do estômago que segura e libera é controle muscular involuntário — e é literalmente a mesma operação que estava falhando.
Isso é o que se chama de isomorfismo: a história tem a mesma estrutura do problema, mesmo falando de outro assunto.
Repare no detalhe que faz a diferença: ele não escolheu qualquer analogia bonita de controle. Ele escolheu dentro do que o garoto já fazia e gostava. Um menino de dez anos nos anos 50 jogava bola e atirava flecha. É de lá que sai o recurso.
Passo 3: sustente a metáfora em terreno inatacável
Tem um motivo para Erickson falar tanto de fisiologia, e não é fetiche médico.
Quando ele fala de músculo, de pupila, de estômago, ele está falando de coisas verdadeiras e verificáveis. Ninguém discute anatomia com o médico. Cada frase produz um "sim" interno. A metáfora inteira anda em cima de um chão que não pode ser contestado.
E tem o bônus: desperta curiosidade sobre o próprio corpo, algo em que a pessoa nunca havia prestado atenção. Atenção capturada, resistência zero.
O que isso não é
Não é conto de fadas. Não é parábola. Não é o terapeuta contando uma "história inspiradora" e esperando o insight.
Por isso a metáfora decorada quase nunca funciona. Ela pode até ser bonita, mas foi construída para o problema de outra pessoa, com o repertório de outra pessoa. Milton Erickson até usava analogias e afins, mas ao fazer isso o foco era outro.
Perguntas frequentes
Qual a diferença entre metáfora ericksoniana e história terapêutica pronta?
A história pronta foi construída para o problema de outra pessoa. A metáfora ericksoniana é montada na sessão, a partir da classe do problema desse cliente e do repertório de vida que ele mesmo trouxe.
Como escolher o tema da metáfora?
Pelo cruzamento de dois critérios: precisa ter a mesma estrutura do problema (isomorfismo) e precisa vir de algo que o cliente já conhece, gosta ou domina.
Preciso explicar a metáfora no final?
Não. Explicar entrega a intenção e transforma a evocação numa sugestão direta disfarçada. A conexão feita pelo próprio cliente é o que dá força ao processo.
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