Erickson não ensinava padrões de linguagem aos alunos
Por Roberto Botelho
Quem estuda ericksoniana preso ao modelo de linguagem não está fazendo hipnose ericksoniana. Quem diz não sou eu — é o principal aluno de Erickson.
Resposta curta: o cara que estuda ericksoniana preso ao modelo de linguagem não está fazendo hipnose ericksoniana. E dessa vez não sou eu dizendo — é Jeffrey Zeig, o principal aluno de Erickson, escrevendo a frase no livro.
A frase é essa: "O Doutor Erickson não ensinava os alunos a usar a linguagem da hipnose."
Vale reler com calma, porque ela desfaz o modo como quase todo mundo aprende ericksoniana hoje.
Erickson não sabia os nomes do que fazia
Zeig conta o processo real. Erickson não pensava "agora eu vou usar uma causa implícita". Ele sabia a fenomenologia que queria provocar, e inventava formas de comunicação que produzissem aquilo.
Ele sabia que queria provocar dissociação, então inventou as declarações de dissociação. Não as nomeou como tal — exceto nas investigações que fez com colaboradores, especificamente com Ernest Rossi.
Quem nomeou depois foram os outros. Bandler e Grinder, modelando Erickson, criaram os padrões e trouxeram à consciência aquilo que ele já fazia. O mapa veio depois do território — e o território funcionava sem mapa.
Zeig usa uma imagem melhor que a minha: ao estudar como as mensagens implícitas provocam estados, Erickson estava explorando uma selva. Os expositores dele tentaram construir um mapa adequado das explorações e categorizar o que ele fazia.
A hipótese sobre por que ele não ensinava
Zeig arrisca um motivo, e é o motivo que importa para você:
Erickson talvez tenha postulado que rotular formas de linguagem limitaria o praticante a pensar em categorias, em vez de se orientar para as respostas específicas do paciente.
Essa é a armadilha inteira numa frase. Quem decorou vinte padrões entra na sessão procurando onde encaixar os vinte padrões. A atenção vai para o repertório, e não para a pessoa na frente.
Enquanto isso, o que Erickson parecia estar se perguntando era outra coisa:
Que efeito fenomenológico eu e o paciente queremos ter? Onde está o paciente agora? Qual seria a meta razoável a ser alcançada?
Três perguntas sobre a pessoa. Nenhuma sobre o catálogo.
O que colocar no lugar
Não é abandonar o estudo. É trocar o que ocupa o centro.
O centro é o aspecto estratégico: onde eu quero chegar. Se eu sei o meu objetivo, a sugestão sai quase sozinha. É o objetivo que escolhe a forma, não o contrário.
E aqui aparece a diferença mais concreta entre a ericksoniana e a hipnose clássica. Na clássica, eu gero o transe primeiro para depois produzir o fenômeno — a amnésia, a catalepsia, a dissociação. Na ericksoniana eu pulo essa etapa e vou direto ao fenômeno, porque a própria indução já é o processo de evocar e eliciar a resposta.
Se o alvo é o fenômeno, a pergunta "qual padrão eu uso?" perde a centralidade sozinha.
Então o modelo Milton não serve para nada?
Serve — e Zeig diz onde: para o iniciante, o rótulo ajuda a diferenciar as várias formas de linguagem hipnótica. Para alguns alunos, conhecer cognitivamente todas as formas é útil no processo de aprendizagem. Gradualmente o uso se torna procedural.
Ele compara com aprender uma dança: primeiro você faz a caixa, depois adiciona passos e gestos, e a coisa fica mais complexa e mais fluida.
O que não pode acontecer é ficar na caixa a carreira inteira. O padrão é andaime, não é o prédio.
O critério final
Zeig fecha o capítulo com a frase que resolve a discussão:
A comunicação é julgada pela resposta que provoca, não pela engenhosidade da estrutura.
Você pode montar uma fraseologia impecável, com acompanhamento longo, sugestão indireta bem construída, encadeamento rico — e a pessoa não aceitar. Acontece. O padrão bonito não é garantia de nada.
O processo ericksoniano não é aquele em que eu sei exatamente o que vai acontecer. Eu sei onde quero chegar. Eu intervenho no sistema, verifico como você reage, e a partir da sua resposta eu modifico a minha próxima intervenção.
É aí que mora a diferença com a clássica: eu leio a indução de Dave Elman e ou você reage, ou não reage. Não existe um processo de modificar a indução de Dave Elman no meio — você troca uma frase ou outra, mas não é flexível assim.
O resumo
Decorar padrão é o começo do caminho, e virou o caminho inteiro para muita gente.
Se você sabe onde quer chegar e está lendo a resposta da pessoa a cada intervenção, você está fazendo ericksoniana — com ou sem o nome do padrão na ponta da língua.
Perguntas frequentes
Não vale a pena estudar o modelo Milton?
Vale, como porta de entrada. Zeig diz que o rótulo ajuda o iniciante a diferenciar as formas. O problema é parar aí.
Como Erickson aprendia então?
Partindo do efeito que queria provocar e inventando formas de comunicação que o produzissem. A nomeação dos padrões veio depois, feita por outras pessoas.
O que estudar em vez de padrões?
O aspecto estratégico: qual fenômeno você quer evocar, onde a pessoa está agora, e qual meta é razoável. A forma decorre disso.
Como sei se a minha sugestão funcionou?
Pela resposta, e só por ela. A elegância da construção não é critério de nada.
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