O que (não) é hipnose ericksoniana: muito além de metáforas
Por Roberto Botelho
Hipnose ericksoniana não é decorar metáforas nem padrões de linguagem. Conheça os conceitos que realmente a definem: utilização, naturalismo e evocação.
Ao falarmos de hipnose ericksoniana, é comum pensarmos numa abordagem que envolve longas contações de histórias, metáforas e o uso de padrões linguísticos de sugestão indireta. Apesar de metáforas e sugestões indiretas serem o senso comum, na prática existem aspectos ericksonianos muito mais importantes e centrais. São eles que balizam todo o processo de hipnose e terapia, tornando-o algo sob medida e diferente para cada pessoa.
Os dois pilares: utilização e naturalismo
Desses elementos, os principais são a utilização e o naturalismo.
A utilização é uma filosofia, um processo que se desdobra em muitos níveis e envolve a ideia de pegar aquilo que a pessoa traz e usar a favor dela — como se fosse esse o próprio motor do sucesso da hipnose. Com a utilização, todas as resistências, dificuldades, valores e afins são aproveitados em prol da própria terapia.
Enquanto na hipnose clássica um cliente que não consegue relaxar é visto como resistente, na ericksoniana dir-se-ia que, quanto mais tenso ele ficasse, mais profundamente entraria em transe. Se um cliente começa a ter espasmos na mão durante uma indução, em vez de ser visto como não cooperativo, dir-se-ia a ele que, à medida que sente o tremor inconsciente da mão, isso o ajuda a entrar em transe profundo e a encontrar soluções para os seus problemas.
Já o naturalismo envolve a ideia de utilizar os comportamentos e padrões já inseridos no sistema do indivíduo. O naturalismo trata de não querer ensinar nada nem inserir algo novo no sistema do cliente, mas sim de usar o que já existe nele para que o próprio potencial interno seja evocado e mobilizado — fazendo a mudança vir de dentro para fora, em vez de fora para dentro.
Na prática, um livro de hipnose ericksoniana que não fale sobre utilização e naturalismo provavelmente contém pouco, ou quase nada, da essência ericksoniana.
O mito da metáfora decorada
O que geralmente vemos por aí são pessoas reduzindo a abordagem ao uso de metáforas decoradas e padrões linguísticos de sugestão indireta — e isso tem pouco, ou nada, de ericksoniano de fato.
Uma metáfora ericksoniana não pode ser decorada, nem tirada de livros; e aquelas histórias focadas em ensinar lições de moral também não são metáforas ericksonianas genuínas. Ao contrário: grande parte das metáforas de Erickson era feita sob medida, de acordo com a individualidade de cada cliente, geralmente abordando experiências pessoais dele para mobilizar potenciais internos de dentro para fora.
Com essas metáforas, torna-se possível disparar estados e potenciais que, por sugestões diretas, dificilmente conseguiríamos. Em vez de eu dizer ao cliente "sinta-se seguro" — algo que ele não consegue fazer só por uma decisão consciente —, podemos conversar sobre situações em que ele já sente segurança. Da mesma forma, não adianta dizer para o cliente se sentir confiante: a confiança não acontece a nível de decisão. Mas, na hipnose ericksoniana, direcionamos a atenção da pessoa para experiências em que ela já tem confiança e, consequentemente, o estado de confiança é disparado.
O foco, ao contar uma história, não é dar uma lição de moral, mas mobilizar os potenciais internos do cliente. Essa "conversa ericksoniana" não pode ser uma história decorada; não adianta eu falar sobre uma experiência minha com confiança, porque pode ser que o cliente não tenha essa vivência, ou que, para ele, ela seja diferente.
Sugestão indireta não é "metralhar" o inconsciente
Muita gente pensa que a sugestão indireta serve para "metralhar" o subconsciente do cliente com sugestões, para que ele aceite as ideias — tornando o processo algo de fora para dentro, em que o hipnólogo sugere e a ideia entra no inconsciente da pessoa.
Essa visão é, na verdade, muito clássica (principalmente associada a Dave Elman), em que tanto o consciente quanto o inconsciente são vistos como limitados. Na clássica elmaniana, a consciência é vista como um obstáculo — deve sair da jogada com o rebaixamento da faculdade crítica —, enquanto o inconsciente é tratado como passivo, pois "devemos dizer a ele o que fazer".
Já na hipnose ericksoniana, de onde vem a ideia de sugestões indiretas, a visão é oposta. A sugestão indireta não tem como objetivo inserir uma ideia na mente do outro, mas ser vaga o suficiente para direcionar a atenção aos próprios potenciais do cliente, criando o ambiente adequado para que a mudança aconteça. Então, em vez de dizer "relaxe", falamos sobre situações de relaxamento para que a atenção se volte para isso — um foco associativo indireto —, dizendo algo como: "E todos nós temos situações em que relaxamos muito. Você pode se lembrar de um desses momentos relaxantes da sua vida."
A técnica é o menos importante
Ao estudar a fundo a hipnose ericksoniana, descobrimos que a técnica é o menos importante. O foco deve estar na atitude e nos conceitos centrais que a definem: utilização, naturalismo, evocação e afins. É isso que faz da hipnose um processo de trazer à tona, de dentro para fora, as experiências, aprendizados e potenciais que o cliente já possui — a favor da solução dos próprios problemas.
Perguntas frequentes
O que é hipnose ericksoniana?
É a abordagem baseada no trabalho de Milton Erickson, definida menos por técnicas e mais por conceitos: utilização (aproveitar tudo o que o cliente traz), naturalismo (usar o que já existe nele) e evocação (mobilizar o potencial interno de dentro para fora).
Hipnose ericksoniana é só contar metáforas?
Não. Metáfora e sugestão indireta são o senso comum, mas o coração da abordagem são a utilização e o naturalismo. E a metáfora genuína é feita sob medida para o cliente, não decorada de um livro.
Qual a diferença entre a hipnose ericksoniana e a clássica?
A clássica trabalha de fora para dentro (o hipnólogo insere sugestões num inconsciente tratado como passivo). A ericksoniana trabalha de dentro para fora, direcionando a atenção do cliente para os recursos que ele já tem.
O que é utilização em hipnose?
É aproveitar tudo o que o cliente traz — resistências, tensões, valores, até um tremor involuntário — a favor do próprio processo, em vez de tratar isso como obstáculo.
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