Focar no potencial, não na patologia: a virada ericksoniana
Por Roberto Botelho
Erickson elogiava a letra que ficou boa em vez de apontar a errada. Entenda por que focar no potencial produz mais mudança do que catalogar o problema.
Um menino que deveria estar na sétima série não conseguia ler. Os pais o forçavam de todas as maneiras possíveis. Todo verão dele era arruinado por professores particulares. E ele reagia não lendo.
O caso está no livro de Jay Haley sobre Erickson, e o que Erickson faz com ele reorganiza a cabeça de qualquer terapeuta.
Ele começou assim: eu acho que seus pais são meio teimosos. Você sabe que não consegue ler, eu sei que você não consegue ler. Eles te trouxeram aqui e insistem que eu te ensine a ler. Aqui entre nós, vamos esquecer isso.
Depois: eu devo fazer alguma coisa por você, então vamos fazer alguma coisa de que você goste. Do que você mais gosta?
O menino respondeu que todo verão queria ir pescar com o pai.
O pai era policial e pescava no Colorado, em Washington, na Califórnia, e até planejava ir ao Alasca. Erickson conseguiu um mapa do oeste e os dois foram procurar os nomes das cidades onde ficavam os pontos de pesca. Não estavam lendo o mapa — estavam procurando cidades.
E Erickson errava de propósito. Procurava Colorado Springs na Califórnia, e o menino tinha que corrigir. Ele não estava lendo: estava corrigindo o médico. Em pouco tempo localizava todas as cidades sozinho. Depois passaram a procurar tipos de peixe e de mosca de pesca na enciclopédia.
Onde estava o olhar de Erickson
Repare no que ele não fez.
Não avaliou o nível de leitura. Não mapeou o déficit. Não investigou a origem do bloqueio. Não montou plano de recuperação por série.
Ele perguntou do que o menino gostava — e transformou isso na fonte de solução.
Esse é o método padrão dele com criança que não lê ou não escreve bem. Ele não dizia "essa letra está feia, isso aqui está errado". Ele dizia: olha que lindo esse M, ficou perfeito, esse redondinho você fez certinho, semana passada não estava assim.
Ou seja: ele olhava para o que já estava funcionando. Para o que estava dando certo. Para o que já produzia resultado.
Consequência direta: a criança fica motivada a melhorar em vez de ser punida pelo que não funciona.
Por que patologia é um mau ponto de partida
Nossa formação inteira treina o olhar contrário. Aprendemos a identificar sintoma, classificar, hipotetizar mecanismo. É útil — e é insuficiente.
Três problemas com começar pela patologia:
Isto não é positividade
Faço questão de separar, porque a confusão é comum e desonesta.
Focar no potencial não é dizer que está tudo bem, não é elogio gratuito, não é evitar o desconforto do cliente. Erickson não estava sendo gentil com o menino — ele estava sendo estratégico.
O elogio dele era verdadeiro e específico. O M realmente estava melhor que na semana anterior. Se você elogia o que não está bom, o cliente sabe, e você perde a única coisa que sustenta o processo, que é ele acreditar no que você fala.
A diferença entre positividade e foco no potencial é essa: uma nega o problema, a outra escolhe por onde entrar nele.
Como isso muda a sua sessão amanhã
Mude a pergunta de abertura. Além de "o que te trouxe aqui", pergunte "do que você gosta, o que você faz bem, como você passa o tempo". Você não está fazendo social. Está fazendo levantamento de recurso — de onde vai sair o material da intervenção.
Procure a exceção. Onde o problema não acontece? Que dia foi menos ruim? O que você fez diferente naquele dia? A exceção é potencial documentado.
Devolva progresso concreto. Não "você está indo bem". Diga exatamente o que mudou: você dormiu duas noites seguidas, você foi ao mercado sozinho, você contou isso hoje sem chorar, coisa que não aconteceu na primeira sessão.
Aceite resolver por fora. No caso do menino, a leitura melhorou sem uma única aula de leitura. Isso vai acontecer com você e vai parecer que você não trabalhou. Trabalhou.
O desfecho do caso
Perto do fim de agosto, Erickson propôs pregar uma peça nos professores e nos pais. Na prova de leitura do início das aulas, o menino deveria pegar o livro da primeira série e tropeçar de propósito, errar tudo, melhorar um pouco no da segunda, um pouco mais no da terceira — e fazer um belo trabalho no da oitava.
Ele achou a ideia maravilhosa e foi exatamente o que fez. Confundiu o professor, deixou os pais atônitos, e foi reconhecido como vencedor.
Se tivesse simplesmente lido bem o manual da primeira série, seria admitir o próprio fracasso anterior. Do jeito que foi feito, virou vitória — dele, e ao mesmo tempo dos pais, que finalmente tinham um filho que lia.
Todo mundo saiu ganhando. E é assim que o trabalho termina quando você entra pelo potencial.
Perguntas frequentes
O que significa focar no potencial em vez da patologia?
É organizar a intervenção a partir do que o cliente já faz bem, gosta e domina, usando isso como matéria-prima da mudança, em vez de partir do catálogo do que está falhando.
Isso não é ignorar o problema do cliente?
Não. O problema continua sendo o alvo. O que muda é o caminho de entrada: você usa recursos existentes para chegar até ele, em vez de atacá-lo diretamente pelo ponto mais frágil.
Focar no potencial é a mesma coisa que pensamento positivo?
Não. O reconhecimento tem que ser verdadeiro e específico. Elogio genérico ou negação do sofrimento destrói a credibilidade do terapeuta e não produz mudança.
Como descobrir o potencial de um cliente que diz não ter nenhum?
Perguntando pelo cotidiano concreto: o que ele faz no tempo livre, do que entende, que problema já resolveu na vida, e em que momentos o sintoma não aparece. Sempre há exceção, e a exceção é o recurso.
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