Toda terapia pressupõe algo: você sai com o problema da abordagem que procurou
Por Roberto Botelho
Quem vai à constelação sai com problema de antepassado. Quem vai à psicanálise sai com problema de pai e mãe. Por que não existe terapeuta neutro — e o que fazer com isso.
Repare no padrão.
Quem procura constelação familiar sai de lá com um problema de antepassados. Quem procura terapia energética sai com um problema energético. Quem procura terapia comportamental sai com um problema comportamental. Quem procura psicanálise sai com um problema de pai e de mãe.
A mesma pessoa. A mesma queixa na entrada. Diagnósticos diferentes na saída.
Isso não é um escândalo, nem denúncia de charlatanismo. É uma observação estrutural! Todas as escolas de terapia usam pressuposições em algum grau.
O que é pressupor, aqui
Pressuposição, em linguagem hipnótica, é falar como se algo já fosse verdade e deixar a dúvida recair sobre outro elemento. "Quando você sentar ali e entrar em transe, você acha que vai ser um transe leve ou profundo?" — o transe não está em discussão. Só a intensidade está.
Uma abordagem terapêutica faz isso em escala industrial, e sem intenção nenhuma de fazer.
A base teórica já decidiu que tipo de coisa é um problema humano antes de você abrir a boca. Se a teoria diz que sofrimento é padrão transgeracional, as perguntas serão sobre a sua família de origem, os achados serão transgeracionais e a formulação final será transgeracional. Não porque alguém trapaceou. Porque a teoria determina o que conta como dado.
Você não escolheu uma técnica. Você escolheu uma ontologia — uma definição do que existe e do que causa o quê. E ela é entregue por implicação, sem nunca ser afirmada.
É impossível não influenciar
A conclusão prática é dura: não existe terapeuta neutro.
Você está influenciando o seu cliente o tempo todo, pela sua própria crença terapêutica. Pelas perguntas que faz e pelas que não faz. Pelo que você trata como relevante e pelo que deixa passar. Pelo vocabulário que oferece para ele nomear a experiência dele.
A ideia do profissional que apenas observa sem interferir é confortável e falsa. O observador escolhe onde apontar a lente, e isso já é intervenção.
Quem se acredita neutro não deixa de influenciar. Só influencia sem saber — e, portanto, sem responsabilidade e sem controle.
O que fazer com isso
Três consequências que valem para quem atende.
Primeira: assuma a autoria. Se você vai influenciar de qualquer jeito, influencie de propósito e na direção do que serve ao cliente. Isso é exatamente o que a hipnose ericksoniana faz de forma declarada, em vez de fingir que não faz.
Segunda: cuidado com o que você instala como explicação. O modelo que você entrega vira a lente com que a pessoa vai enxergar a própria vida depois que sair da sua sala, às vezes por anos. Uma explicação que devolve potência é diferente de uma explicação que instala uma condenação de origem. Você não está apenas descrevendo o problema dela: você está escolhendo em que problema ela vai acreditar que tem.
Terceira: desconfie do achado que sempre confirma a sua teoria. Se todo cliente que entra na sua sala tem exatamente o tipo de problema que a sua formação prevê, isso não é evidência a favor da sua abordagem. É evidência do efeito descrito aqui.
E a hipnose ericksoniana?
Não escapa, e nem finge escapar.
A ericksoniana pressupõe que a pessoa tem recursos, que a mudança pode acontecer sem consciência do mecanismo e que o problema pode ser tratado sem escavar a origem. Isso também é uma ontologia. Também molda o que aparece na sessão.
A diferença não é ser livre de pressuposição — é saber que está pressupondo. Quando você sabe, você escolhe. Você pode inclusive escolher pressupor a favor da autonomia do cliente em vez de a favor da sua teoria.
E há um teste honesto para isso: se a sua abordagem não está resolvendo o que a pessoa trouxe, o que a sua teoria diz? Se ela diz "o cliente resiste", desconfie. Se ela permite dizer "essa lente não serve aqui, precisa de outra coisa", você tem alguma humildade embutida no modelo.
Toda terapia coloca óculos no cliente. A pergunta séria não é como tirar os óculos. É se você sabe qual armação está entregando.
Perguntas frequentes
Existe terapia neutra?
Não. Toda abordagem carrega pressupostos sobre o que causa o sofrimento humano, e esses pressupostos determinam quais perguntas são feitas e quais achados aparecem. A neutralidade é um ideal, não uma descrição do que acontece.
Isso significa que a terapia inventa o problema do cliente?
Não inventa o sofrimento, que é real. Mas a abordagem molda a forma como esse sofrimento é nomeado e explicado. O mesmo mal-estar pode virar um problema de família de origem, de comportamento aprendido ou de recurso não acessado, conforme a lente.
Como escolher uma abordagem terapêutica então?
Olhe para o que a abordagem pressupõe e pergunte se essa explicação te devolve capacidade de agir ou se te dá um veredito fixo. E olhe para o resultado prático que ela produz no tempo que ela promete.
A hipnose ericksoniana também pressupõe coisas?
Sim. Ela pressupõe recursos disponíveis, mudança possível sem insight e trabalho sem escavar a origem. A diferença é que ela reconhece a influência em vez de negá-la, o que permite usá-la de forma deliberada.
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